Ele
não sabia ao certo dizer como o tempo passou tão rápido. Os anos engoliram seus
sonhos e sua juventude. Os otimistas viviam lhe dizendo que os sonhos nunca
morrem, mas muitos ele simplesmente escolheu deixar de sonhar. Os deixou pelo
caminho como quem esvazia uma gaveta de coisas inúteis.
Ele
gostava de observar as pessoas que viviam muitos dos sonhos que um dia também
foram dele. Mas não com inveja, apenas tentando se ver ali naquela situação. Às
vezes ele sorria com a imagem que sua mente projetava, às vezes ele chorava.
Ele
queria ter a coragem de falar, falar além das palavras apenas. Queria ser capaz
de revelar o que habita seu coração. Tinha a impressão de que poucos o
conheciam além do superficial. Conheciam um pouco de sua personalidade, do seu
jeito de ser, mas quem de fato sabia de seus sentimentos mais profundos? Quem
de fato um dia se interessou em sentar e desemaranhar o novelo de seus
sentimentos? Ele que sempre gostou da sensação de ser lapidado pelas pessoas,
quando encontrou alguém disposto a expurgar com ele seus maiores medos?
Colocou
de lado o caderno, companheiro fiel que nunca julgou seus sentimentos e sempre
acolheu seus escritos de forma passiva. Escrever era para ele a forma mais pura
de oferecer a seus sentimentos a chance de se expressarem. Ali ele era livre,
pois se eximia do julgamento. Quem seria capaz de separar o que de fato ele
falava de si mesmo e o que era apenas devaneios de um escritor?
Caminhou
até a orla do pequeno riacho de águas límpidas, jogou água no rosto e se
observou no espelho de água. A barba por fazer entremeada de fios brancos. Os cabelos
já ralos e tornando-se grisalhos. Ali admirou seus cabelos brancos como um
pedaço desnudado de alma. O tempo passou. Sentiu afeto por seus cabelos
brancos, pelas rugas já proeminentes ao redor de seus olhos. Sorriu para sim
mesmo, se sentindo bonito. Há algo de fascinante nesse descortinar não
planejado.
Voltou
a seu caderno e continuou se derramando nas linhas, sem medo, sem censura. As palavras
foram sempre seu ópio, a viagem mais libertadora. Em seus escritos ele
apressava o tempo para não pensar. Melancolia! Gosto de seus fonemas.
Seus
olhos vagaram pela paisagem quieta e serena. Buscava a finalização de um novo
texto. Fechou os olhos, a caneta descansando sobre um novo parágrafo. Abaixou a
cabeça, abriu os olhos e se derramou: - Que eu me aquiete na paz do
merecimento. Que apenas contemple. Que eu me reconheça e me acolha. Por que
fugir de mim mesmo se eu me faço boa companhia?
Fechou
o caderno e se levantou. Ainda entorpecido por suas palavras, pois quando escrevia
ele se descobria, caminhou decidido, o escritor preso em seu caderno. Foi viver
a vida.
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