O
panorama era de urgências, cheio das pressas que nos tiram a beleza da paisagem
do caminho. Buzinas que remetem à impaciência de quem não sabe esperar. Em meio
à balbúrdia, visualizo um casal de idosos que há muito se desfez da celeridade que
tem sido a regra de nossos tempos.
Observo embevecido, o passo moroso daqueles dois que pela sincronia dos movimentos, já caminham juntos há muito tempo. Não saberia dizer se ela se apoiava nele, ou ele nela. Mas espreitando os dois, eu poderia afirmar que seus corpos se moldaram de tal forma, que um se tornou o sustento do outro. Desaprenderam a caminhar sozinhos. E talvez, nem o desejem mais.
Caminham lado a lado em silêncio sagrado. Muito já foi dito. É tempo de contemplação. O caminhar deles destoa na multidão. Há muito perderam a pressa de chegar. Já colheram o essencial da vida, agora caminham admirando os frutos das sementes plantadas.
Encantado me permito abandonar minhas impaciências, para no caminhar daquele casal reabastecer minhas forças. Não os conheço. Não sei para onde vão, e nem quando vão chegar. Seus passos rompem lentamente os espaços, e não demonstram ter hora marcada para chegar.
Devaneio sobre a juventude deste casal. Quando se conheceram? Quais as dificuldades enfrentaram? Em que momento a balança deixou de pender para o passageiro e vergou para o eterno? Quando a aparência física se deteriorou, os movimentos se tornaram mais lentos, mais dependentes, quando a memória se tornou detenta do cárcere do esquecimento, o essencial permaneceu em toda sua robustez. O amor ágape sobrepujou tudo.
Os braços entrelaçados daquele casal foi minha oração. Que meus passos saibam caminhar também rumo ao que permanece. Que eu saiba investir no plantio da semente que um dia me dará frutos dos quais saborearei, ciente do trabalho investido no cultivo, das escolhas feitas, daquilo que abri mão em prol de algo mais definitivo. Que meus olhos se afastem do volátil tão fácil de conseguir, mas que se desintegra no tempo. Quero a beleza do que perdura até o fim. Quero abrir mão da pressa por já ter encontrado minha paragem definitiva.
E o olhar enlevado daquele casal foi meu amém.

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