sábado, 27 de dezembro de 2014

O CADERNO


Ele não sabia ao certo dizer como o tempo passou tão rápido. Os anos engoliram seus sonhos e sua juventude. Os otimistas viviam lhe dizendo que os sonhos nunca morrem, mas muitos ele simplesmente escolheu deixar de sonhar. Os deixou pelo caminho como quem esvazia uma gaveta de coisas inúteis.
Ele gostava de observar as pessoas que viviam muitos dos sonhos que um dia também foram dele. Mas não com inveja, apenas tentando se ver ali naquela situação. Às vezes ele sorria com a imagem que sua mente projetava, às vezes ele chorava.
Ele queria ter a coragem de falar, falar além das palavras apenas. Queria ser capaz de revelar o que habita seu coração. Tinha a impressão de que poucos o conheciam além do superficial. Conheciam um pouco de sua personalidade, do seu jeito de ser, mas quem de fato sabia de seus sentimentos mais profundos? Quem de fato um dia se interessou em sentar e desemaranhar o novelo de seus sentimentos? Ele que sempre gostou da sensação de ser lapidado pelas pessoas, quando encontrou alguém disposto a expurgar com ele seus maiores medos?
Colocou de lado o caderno, companheiro fiel que nunca julgou seus sentimentos e sempre acolheu seus escritos de forma passiva. Escrever era para ele a forma mais pura de oferecer a seus sentimentos a chance de se expressarem. Ali ele era livre, pois se eximia do julgamento. Quem seria capaz de separar o que de fato ele falava de si mesmo e o que era apenas devaneios de um escritor?
Caminhou até a orla do pequeno riacho de águas límpidas, jogou água no rosto e se observou no espelho de água. A barba por fazer entremeada de fios brancos. Os cabelos já ralos e tornando-se grisalhos. Ali admirou seus cabelos brancos como um pedaço desnudado de alma. O tempo passou. Sentiu afeto por seus cabelos brancos, pelas rugas já proeminentes ao redor de seus olhos. Sorriu para sim mesmo, se sentindo bonito. Há algo de fascinante nesse descortinar não planejado.
Voltou a seu caderno e continuou se derramando nas linhas, sem medo, sem censura. As palavras foram sempre seu ópio, a viagem mais libertadora. Em seus escritos ele apressava o tempo para não pensar. Melancolia! Gosto de seus fonemas.
Seus olhos vagaram pela paisagem quieta e serena. Buscava a finalização de um novo texto. Fechou os olhos, a caneta descansando sobre um novo parágrafo. Abaixou a cabeça, abriu os olhos e se derramou: - Que eu me aquiete na paz do merecimento. Que apenas contemple. Que eu me reconheça e me acolha. Por que fugir de mim mesmo se eu me faço boa companhia?

Fechou o caderno e se levantou. Ainda entorpecido por suas palavras, pois quando escrevia ele se descobria, caminhou decidido, o escritor preso em seu caderno. Foi viver a vida.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

AUSÊNCIA


Ao abrir os olhos o dia parecia tão diferente enquanto ao mesmo tempo tão comum. Os  “bons dias” foram os mesmos, a rotina também seguiu seu curso. Só o coração teimou em não aceitar que tudo continuasse igual. Existia uma perda e uma saudade.
Na frente do espelho ele se observava, os olhos ainda vermelhos de uma noite mal dormida e das lágrimas que, suavemente traçaram um caminho constante de seu rosto ao seu travesseiro. Os olhos estavam inchados, e ele se perguntava o que faz com que alguém se torne tão marcante em nossas vidas, em tão pouco tempo.
Mesmo diante de perguntas sem respostas, a única certeza que ele possuía era a de que sua dor era de fato real. Ah, como ele temeu por este dia, e como sabia que um dia ele chegaria, porém não acreditava que fosse tão rápido e tão carregado de dor.
Lavou o rosto e se apoiou na pia deixando que o calor de suas lágrimas formassem sulcos onde a água fria ainda escorria. Observou os sinais do tempo já presentes em seu rosto. Lembrou-se do sorriso dela e por um momento pareceu que também sorria, mas tudo que viu foram mais evidências do tempo. O sorriso dela sempre inundou seu coração de uma paz que palavras não poderiam nunca explicar. Ela se tornara especial antes mesmo que ele tivesse a chance de olhá-la nos olhos. 
Recordou com saudade e dor da presença dela, da voz que aos seus ouvidos sempre pareceu uma sinfonia dos anjos. A risada dela que tornava impossível não rir junto. O toque suave de suas mãos macias que descarregava uma carga elétrica por seu corpo sempre que ela o tocava.  E o tempo? O tempo que peralta brincava de roubar as horas quando ele podia estar com ela.
Naquele dia, todos que com ele encontraram questionaram seu jeito distraído, seus olhos vermelhos, seu semblante abatido. Por um curto momento ele olhava aquelas pessoas na esperança de que as perguntas carregassem consigo um desejo real de conhecê-lo profundamente. Mas rapidamente ele percebia que as perguntas carregavam apenas a etiqueta de uma relação social. Dizia estar bem e isso parecia aliviar o coração daqueles que não queriam de fato se aprofundar nas dores dos outros.
Sem se dar conta, ele se viu parado próximo ao local onde os dois foram naquela noite tão mágica. Caminhou a passos trôpegos até onde se sentaram e onde seus braços a enlaçaram. Sentou-se no mesmo lugar, e seus olhos varreram a paisagem que naquele momento não possuía mais a mesma cor e a mesma vida de quando estava com ela.
Fechou os olhos e reviveu novamente o momento onde os lábios dela tocaram os seus. Nunca conseguiria esquecer aquela sensação de ser alçado aos céus, o momento onde olhou dentro dos olhos dela e ali se viu. O momento onde ambos nada precisaram dizer, porque tudo já havia sido dito.
Agora ali sentado, ele sabia que aquele momento foi a ruptura onde ele a ganhou e a perdeu. Nada mais poderia ser como antes. Olhando o vazio ao seu lado, ele se deu conta de que teve a chance de mantê-la para sempre ao seu lado, mas não soube cuidar do que lhe foi confiado. Ela lhe apresentou um coração ferido, ainda em recuperação, e ele se esqueceu da fragilidade que nela habitava.
Neste momento, a dor também o dilacerava, porque ele não compreendia as matizes do amor. Como ele poderia fazer com que ela o perdoasse por ter amado tanto, por ter se esquecido que salvá-la disso tudo valia muito mais?

Levantou-se e foi embora. No peito carregava os sonhos, os desejos nunca revelados. E o peso de saber que o vazio que ela deixou, era a prova inequívoca de que ela também sofria.

sábado, 20 de dezembro de 2014

PASSOS MODIFICADOS


Já sentiu vontade de modificar seus passos? Ou reescreve-los? Numa noite de insônia, abri a janela e fiquei observando a noite que tudo silencia menos nossos pensamentos. Num céu de estrelas, a lua magnífica velava sobre nós. Enquanto a observava, pude sentir que mais do que ninguém ela conhece os anseios do meu coração. Por tantas noites, foi ela a única testemunha de minhas lágrimas e da dor do meu coração. Seu brilho tantas vezes se refletiu na névoa que minhas lágrimas estendiam sobre meus olhos. Foi ela também companheira quando da janela olhando o céu, fazia da minha dor uma oração.
Então empreendi uma viagem para dentro da minha história. Um retrocesso que me trouxe recordações de sentimentos já tanto esquecidos, de dores já passadas, de alegrias que nem mais me lembrava. Na estrada da minha história, fui reencontrando pessoas que ficaram no caminho, ou que escolheram outro caminho.
De repente percebi que esse retorno me permitia consertar as coisas, falar o que deixei de falar quando tive oportunidade, mostrar o valor que deixei de mostrar, manter em minha vida quem deixei partir. Estendi as mãos e fui resgatando do caminho aqueles que por descuido ou orgulho, abandonei. Ao mesmo tempo, fui libertando aqueles que por tempo demasiado permaneceram presos em meus laços.
Em determinado momento, me deparei com uma rua de lágrimas. Estarrecido descobri que provinham das pessoas as quais magoei no decurso de minha vida. Desesperado, me agachei em meio aquela torrente, tentando de toda forma enxugar tantas lágrimas. Mas as lágrimas que eu derramava diante dessa cena, tornavam o trabalho infrutífero.
Levantei-me encharcado e tremendo, buscando encontrar as pessoas que habitavam aquela rua. A cada uma que eu abraçava, permitia que nossas lágrimas unidas molhassem a terra, esperando que frutificassem em frutos de perdão e renascimento.
Exausto, me arrastei até a esquina onde visualizei outra rua, cheia daquelas pessoas que sempre imaginei que se tivessem tido outro momento para entrar em minha vida, a teriam modificado de forma muito mais ativa. Com novo ânimo corri ao encontro delas e comecei a realoca-las. Tomando pela mão cada uma eu corria pelas ruas da minha vida, trazendo algumas para um tempo anterior ao que elas haviam chegado, e outras, eu levava para frente.

Era um trabalho estafante, e eu já não sabia mais se estava consertando as coisas ou que consequências adviriam disso. Emocionalmente cansado caí no meio de um cruzamento. Quando meus olhos se abriram, uma mão se estendia para me ajudar a levantar. O que me marcou foi o sorriso que acalentou meu coração. Já de pé, fui envolvido por aqueles braços e, enquanto minha cabeça repousava em seu peito, ele cantou de forma tão angelical que as palavras adentravam meu coração e iam curando, modificando, me refazendo.

Nem sempre na vida se joga tão bem,
Se destroem as coisas e os sonhos também,
Nossos olhos se enchem de lágrimas,
Lembrando o que aconteceu

Ninguém nunca nos disse ou tentou ensinar,
Que alguns que se amam podem se odiar,
Quando não se permite ao amor respirar o orgulho consegue ganhar.
Eu sei não é fácil ver desmoronar,
Tua felicidade num castelo de areia,
Ouvir estas vozes na escuridão
Te acusando e reclamando.

Não foi tua culpa e não te enganem com isso,
Não foi tua culpa liberta-te desse peso
Não te tortures pensando que mal tens feito
Se Deus não te acusa ninguém mais tem o direito
Não foi tua culpa

Não tenha vergonha se queres chorar
Tens uma ferida que deve curar
E se queres olhar adiante, o passado se deve sarar
Eu sei não é fácil falar de perdão
O ódio atrapalha e escurece a razão
Já não busques culpados em teu coração
Mas um refugio onde possas amar

Tenha coragem e segue lutando
Há muito por amar e Deus não pensa em deixar-te
Se andam falando que a história acabou
A verdade é outra apenas está começando

Não foi tua culpa que não te enganem com isso,
Não foi tua culpa liberta-te desse peso
Não te tortures pensando que mal tens feito
Se Deus não te acusa ninguém mais tem o direito

Tens mais uma chance de ser feliz
Ainda pode dizer ao amor
Que sim ...
Que sim...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

UM PREGO NA PAREDE


A casa estava para ser demolida. Maravilhado eu olhava cada canto daquele lugar. Também, pudera, ali vivera os últimos vinte anos de minha vida. Permaneci de pé, na entrada, onde tantas vezes fora receber o carteiro. Na entrada, eu vi pela primeira vez, dos oito anos, a Maria fumaça que puxava os vagões de minério.
Agora é como se a vida acabasse. Aprendo desde cedo que a existência nossa é tão efêmera quando o entardecer. Ter que deixar o ninho é sempre arriscado para um filhote que mal sabe voar. Tudo naquele lugar me lembrava a experiência de outrora. O prego na parede me lembrou o dia em que introduzir o quadro de Chaplin na sala de visita. Acho que ele me falava de pureza, de sonho, de esperança. Ele me ensinara a genialidade do acreditar na vida.
Um prego na parede sustentou a esperança em meu coração aleijado.
Agora a sua ferrugem me causava tétano na alma. Era bobagem tirar aquele prego da li. Podia esperar que fosse demolida a casa, mas queria arrancá-lo como se faz com as raízes de um carvalho senil. Com as mãos puxei com violência o prego da parede. Aquele gesto cheio de significado e de sentido para mim selou o fim dos meus dias de felicidade.
Com o prego nas mãos, olhei a parede com o furo aberto, como se fosse uma chaga que eu abri, sem ao menos pedir licença.
Em mim sangrava como se houvesse uma hemorragia sem cura.
Meu lugar sempre fora ali, como daquele prego tinha sido aquela sala, sustentando aquele quadro. Atirei o prego para o alto com o desejo de subir também até o céu. Não sei cuidar dos pregos na parede. Quero uma outra casa para morar, onde não haja lugar para a saudade e onde não se possa colocar pregos nas paredes. 
         
                                                                                            13/10/1999
                                                     Renato Magno Souza Lima