quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

UM PREGO NA PAREDE


A casa estava para ser demolida. Maravilhado eu olhava cada canto daquele lugar. Também, pudera, ali vivera os últimos vinte anos de minha vida. Permaneci de pé, na entrada, onde tantas vezes fora receber o carteiro. Na entrada, eu vi pela primeira vez, dos oito anos, a Maria fumaça que puxava os vagões de minério.
Agora é como se a vida acabasse. Aprendo desde cedo que a existência nossa é tão efêmera quando o entardecer. Ter que deixar o ninho é sempre arriscado para um filhote que mal sabe voar. Tudo naquele lugar me lembrava a experiência de outrora. O prego na parede me lembrou o dia em que introduzir o quadro de Chaplin na sala de visita. Acho que ele me falava de pureza, de sonho, de esperança. Ele me ensinara a genialidade do acreditar na vida.
Um prego na parede sustentou a esperança em meu coração aleijado.
Agora a sua ferrugem me causava tétano na alma. Era bobagem tirar aquele prego da li. Podia esperar que fosse demolida a casa, mas queria arrancá-lo como se faz com as raízes de um carvalho senil. Com as mãos puxei com violência o prego da parede. Aquele gesto cheio de significado e de sentido para mim selou o fim dos meus dias de felicidade.
Com o prego nas mãos, olhei a parede com o furo aberto, como se fosse uma chaga que eu abri, sem ao menos pedir licença.
Em mim sangrava como se houvesse uma hemorragia sem cura.
Meu lugar sempre fora ali, como daquele prego tinha sido aquela sala, sustentando aquele quadro. Atirei o prego para o alto com o desejo de subir também até o céu. Não sei cuidar dos pregos na parede. Quero uma outra casa para morar, onde não haja lugar para a saudade e onde não se possa colocar pregos nas paredes. 
         
                                                                                            13/10/1999
                                                     Renato Magno Souza Lima



Nenhum comentário: