A casa estava para ser demolida. Maravilhado eu olhava
cada canto daquele lugar. Também, pudera, ali vivera os últimos vinte anos de
minha vida. Permaneci de pé, na entrada, onde tantas vezes fora receber o
carteiro. Na entrada, eu vi pela primeira vez, dos oito anos, a Maria fumaça
que puxava os vagões de minério.
Agora é como se a vida acabasse. Aprendo desde cedo que a
existência nossa é tão efêmera quando o entardecer. Ter que deixar o ninho é
sempre arriscado para um filhote que mal sabe voar. Tudo naquele lugar me
lembrava a experiência de outrora. O prego na parede me lembrou o dia em que
introduzir o quadro de Chaplin na sala de visita. Acho que ele me falava de
pureza, de sonho, de esperança. Ele me ensinara a genialidade do acreditar na
vida.
Um prego na parede sustentou a esperança em meu coração
aleijado.
Agora a sua ferrugem me causava tétano na alma. Era
bobagem tirar aquele prego da li. Podia esperar que fosse demolida a casa, mas
queria arrancá-lo como se faz com as raízes de um carvalho senil. Com as mãos
puxei com violência o prego da parede. Aquele gesto cheio de significado e de
sentido para mim selou o fim dos meus dias de felicidade.
Com o prego nas mãos, olhei a parede com o furo aberto,
como se fosse uma chaga que eu abri, sem ao menos pedir licença.
Em mim sangrava como se houvesse uma hemorragia sem cura.
Meu lugar sempre fora ali, como daquele prego tinha sido
aquela sala, sustentando aquele quadro. Atirei o prego para o alto com o desejo
de subir também até o céu. Não sei cuidar dos pregos na parede. Quero uma outra
casa para morar, onde não haja lugar para a saudade e onde não se possa colocar
pregos nas paredes.
13/10/1999
Renato Magno Souza Lima

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