quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Fraternidade


Gostaria de encontrar pessoas que sem meandros me explicassem o verdadeiro significado da palavra fraternidade. Não em citações do seu significado buscado em  dicionários, mas com atitudes concretas. Eu acredito que se banalizou muito o uso desta palavra, desprovida de seu verdadeiro valor.
Gosto muito de desmembrar as palavras lá em sua origem, onde mais fácil fica perceber o que a mesma deseja representar. No latim, fráter significa irmão. Então a fraternidade deve nos levar a vivermos em união, como irmãos. Mesmo que em nossos tempos com uma frequência maior, os laços de sangue já não sejam uma premissa para o amor, a definição nos ajuda a entender o objetivo mor da fraternidade.
Depois, remetendo aos conceitos filosóficos, a fraternidade vem atrelada às ideias de liberdade e igualdade, que constituíram grande parte do pensamento revolucionário francês. Desta forma, meu entendimento me faz acreditar que a fraternidade carrega consigo uma grande responsabilidade e nos suscita um grande compromisso que é o de amar aos outros como irmãos, no respeito, na liberdade do outro ser quem é e na igualdade entre os pares.
Vejo esta palavra surgir com frequência, mas não vejo a sua aplicação equiparada à sua citação.
Estive por um ano e meio prestando serviços numa organização religiosa evangélica. A primeira coisa que notei, foi que em nenhum momento me senti diferente, deixado à margem, tratado como alguém que não pertencesse ao meio. Sempre fui tratado tão carinhosamente por pastores, pastoras, membros e funcionários daquela igreja, que verdadeiramente ali eu encontrei a tão falada fraternidade. E ali, mesmo não professando a mesma fé, nunca me olharam com olhos que não de amor. E então constatei que a fraternidade é como uma criança de colo que estende os braços a quem a deseja.
Como católico, tenho sentido falta desta fraternidade mais vivida que falada. Frequento há mais de trinta anos a mesma comunidade, e tantas vezes percebo como me sinto sozinho lá, como tantas vezes parecemos mais figurantes numa peça teatral, apenas ocupando espaços sem ao menos sabermos quem é o outro que está tão perto.
Minha noiva com certeza identificaria o problema e me transmitiria sua percepção com apenas um olhar. E eu não posso de fato desdizer do que ela pensa. Eu de fato sou uma pessoa difícil de relacionar. Mas não porque eu não saiba acolher o outro e respeitar as diferenças, mas porque sou muito entranhado em mim mesmo, um bicho do mato como ela mesma diz. Minha timidez afasta, talvez porque a vejam como prepotência. Sou de falar pouco quando diante de alguém que não conheça muito bem, e logo a conversa acaba não rendendo muito, e a pessoa pode até pensar que eu me enfadei e desistir de uma aproximação mais efetiva. Ela tem razão. Eu sou parte do problema. Mas mesmo como bicho do mato, aqueles membros daquela comunidade me alcançaram e me fizeram de fato me sentir um irmão com eles.
Mas independente disso, tenho observado como as pessoas ainda são muito presas naquilo que o outro tem a oferecer. Posso entrar e sair da igreja durante mais de 30 anos, sentando sempre no mesmo lugar, sem que as pessoas ao redor sejam capazes de oferecer ou retribuir um cumprimento de forma mais efetiva. Mas basta que adentre uma pessoa que carregue um título à frente do nome, para que se forme fila para cumprimentar e oferecer o melhor dos sorrisos. Então percebo que é fácil pregar a fraternidade, desde que não seja condição sine qua non que a viva também.  
E tudo isso tem me feito buscar ser mais fraterno, mesmo que o outro me olhe intrigado ou não me retribua. Talvez seja eu que precise primeiro me despir dos meus excessos, para que o outro encontre onde fazer morada em mim.
E pensando em tudo isso, eu percebo que sou muito crítico, que espero demais daqueles que dizem buscar viver como Jesus viveu. Afinal, somos todos vasos de barro sendo moldados pelo Criador. E muitos ainda são reticentes a estas mudanças.
Então, a segunda carta de São Paulo aos Coríntios, em seu capítulo seis, versículo doze, me ofereceu o que meditar:
“Nele não falta lugar para vós; em vós mesmos é que não tendes espaço.”

Um comentário:

Anônimo disse...


O verdadeiro significado da fraternidade vc descobriu por si mesmo. Me lembrei agora daquela oração que diz: Deus Pai, Tu és o meu único refúgio, meu único sustento.

Raquel