Cemitério, originado do latim, com significado de "fazer deitar". Faz sentido, apesar que penso que quem faleceu, já deitou muito antes de chegar ao cemitério. Enfim...eu divagava sobre algumas coisas. Uma delas, é do porque os cemitérios serem geralmente lugares tão tranquilos e muitas vezes dotados de uma natureza exuberante. Árvores, flores, passarinhos, e uma quietude que chega a gritar. Sempre ouvi na Igreja o padre recitar: "Que as almas dos fiéis defundos pela misericórdia de Deus descansem em paz". Não acredito ser essa paz que ele se referia não é? E voltando aos meus pensamentos, a tranquilidade que os cemitérios possuem, aquele silêncio, aquela paz diante do verde, nada muda para aqueles que se foram. A paz que de fato eles precisavam, era em vida. E após a morte, acredito que a paz verdadeira foi alcançada longe daquele verde, longe da indicação de onde seus corpos repousam. Estariam em paz mesmo se fossem enterrados em plena Afonso Pena. (sou de Belo Horizonte, e para os que não conhecem, Afonso Pena é a avenida principal que corta o centro da cidade).
Eu não estava ali por ter perdido nenhum parente, nem mesmo algum conhecido. O falecido que fora motivo de meu deslocamento até ali, nem mesmo o rosto eu conhecia, ou sei se era falecido ou falecida. Eu estava ali apenas como motorista da kombi que levou 8 pessoas para a despedida final. Se parentes ou amigos, não sei dizer, mas o clima festivo que reinava dentro da kombi no trajeto, não indicava ser o defunto tão íntimo de nenhum deles. Talvez estivessem indo apenas para cumprir a formalidade da despedida, a etiqueta social de levar os pêsames aos entes queridos daquele que se foi e dizer palavras de conforto. Nada sei, cumpri apenas com minha função de motorista, e sentei ouvindo música enquanto esperava. E neste momento, já nem sei mais qual música tocava.
Observando as pessoas, podia notar os mais heterogênios sentimentos. Uns choravam, outros balançavam a cabeça como ainda a não acreditar, alguns andavam distraídos arrancando uma folha de uma árvore aqui, chutando uma pedra ali, outros em grupos conversavam amenidades, deixando vez ou outra escapar uma risada, que naquele ambiente carregado de tristeza, chegava a ser uma séria afronta.
Minha atenção foi desviada para aqueles que acompanhavam o destino final de uma vida aqui na terra. Em passos vagarosos, como a querer retardar a partida daquele que já se foi, seguiam o carrinho que transportava o caixão, acompanhados do som das rodas que pareciam entoar uma cantiga triste com seus rangidos ao se deslocar pelo solo pedregoso.
Mas o que chamava minha atenção, eram as pessoas que seguiam o cortejo. Alguns olhavam em intervalos curtos as horas em seus relógios. Com certeza haviam dado uma fugida do trabalho, outros tinham talvez algum compromisso com hora marcada, e alguns simplesmente se preocupavam com a hora do almoço. Para aquele que partia desta vida, nada destas preocupações existam mais.
E me vi pensando... aquele homem que sempre criava caso com a esposa, que era ciumento ao extremo, se foi sem levar consigo esse sentimento. Após seu enterro, sua esposa agora de posse de um novo adjetivo à frente do nome, seguirá sua vida sem ele.
A morte vem nos mostrar que não somos proprietários de ninguém. Muitas vezes é preciso a morte para nos livrar de pesos que carregamos durante toda a vida. Ansiedade em exagero, ciúmes, rancores, inimizades, mágoas. Talvez seja por isso que muitas vezes ao observar o defunto, percebo uma certa serenidade nas feições daquele corpo que já foi desprovido de todo estes sentimentos. A serenidade é fruto de um corpo que já não carrega em si as mazelas da vida. A alma se libertou de todo peso e deixou sua carcaça. Eh como a larva que ao se tornar borboleta, abandona sua antiga morada.
De longe eu observava o caixão que descia encerrando um ciclo, o ciclo da vida. Antes mesmo que tocasse a terra, muitos já haviam se virado correndo para suas vidas. Eu olhava o dia bonito, de sol e céu limpo, e pensava naquela vida que havia terminado sua trajetória entre nós. Derramei algumas lágrimas, que não soube qualificar se pelo defunto, ou por aqueles que não souberam aproveitar a presença de quem se foi, por aqueles que perderam a chance de uma reconciliação, de mostrar o valor, de dizer o que ia no coração. A morte sempre ultrapassa aquele corpo dentro do caixão. Muitos experimentam juntos a morte do sentimento que não foi revelado, da palavra que não foi dita, da mágoa não curada, do abraço que não foi dado. O defunto mostrava sua condição de forma muito clara, já as outras pessoas que julgavam estarem carregadas de vida, mal percebiam carregar dentro de si muitas mortes.
Falar da morte é um assunto que ninguém gosta,, mas saí dali com o desejo de que eu possa viver as pequenas mortes em vida, me livrando dos sentimentos ruins, aproveitando mais a convivência com os que vivem ao meu lado, mostrando mais o valor que as pessoas possuem em minha vida, amando mais, perdoando mais, dando mais valor ao que realmente importa. Se for então para trazer em mim mortes, que seja de tudo que desagrega e me impede de aproveitar o melhor das pessoas, o melhor de mim.
