quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Fogão à Lenha


A lenha queimando no fogão me remetia ao desfiar de contas do rosário nas mãos das idosas que sussurravam ave-marias como um trem de ferro ganhando velocidade. Era incompreensível o que diziam, mas o som das diversas vozes trazia acalento ao meu coração. Assim era com o canto da lenha crepitando. Tempo de simplicidades, tempo de singelezas.
Saíamos cedo para buscar lenha e, muitas vezes, encontrávamos o sol saindo também para mais um dia de trabalho. A lenha, que era juntada nos braços, era como sonhos pegos pelo caminho. O trabalho se misturava com as risadas e o canto dos pássaros.
A lenha se fazia cinza para gerar calor. Cumpria seu papel. Como a lenha, eu desejava me consumir por um propósito maior. A lenha que queimava era também oração.
A lenha alimentava o fogão, e o café que estava sendo preparado tinha cheiro de felicidade.
Ali, ao redor da mesa, junto ao fogão, era o altar sagrado da convivência familiar. Todos eram bem-vindos e a alegria se multiplicava ao ser partilhada.
A única condição era depositar ao pé da porta de entrada qualquer forma de ter. Ali, só o ser encontrava lugar à mesa. Nos despíamos do status, depositávamos os doutores, os diplomas, os cargos, as hierarquias e, ao tomar cada qual seu lugar, todos se sentiam mais leves.
A mesa posta, a broa de fubá, o café ainda fumegando, os corações quentes. Então, Deus tomava seu lugar à mesa, nos concedia sua bênção e sorrindo, pedia que lhe passassem a manteiga. Naqueles instantes, a gente contava causos, brincava e acreditava que o céu se faz presença onde lhe preparamos a mesa.

Um comentário:

Anônimo disse...

E nestes momentos , podemos ver, que o paraíso também pode existir aqui na terra.

Raquel