quinta-feira, 25 de junho de 2015

PASSOS QUE LIBERTAM


Caminhei tantas vezes perdido, procurando encontrar o que eu mesmo nem sabia que procurava, ou o que procurava.
Olhava o mundo com desconfiança, me sentindo tão deslocado de tudo. Um vazio, uma saudade, um desejo, uma vontade de não sei o que. Nem eu mesmo compreendia minhas lágrimas, apenas tinha ciência de que elas precisavam romper a represa de meus olhos e se libertarem. Precisavam me libertar também.
Diante daqueles que me olhavam na superfície, meu riso tantas vezes forçado lhes bastava. Eu era solidão na multidão, e tantas vezes fui multidão na reclusão de mim mesmo.
Fiz da poesia, da escrita, meu canal de salvação. Despejei no papel toda minha dor, tudo que não compreendia, tudo que feria. As letras corriam linha por linha, folha por folha, e minha alma se derramava no papel. Eu era o único leitor de mim mesmo. Lia a dor que construiu morada dentro de mim. Posseira, se recusava a ir embora. Rasguei tantas vezes folhas e folhas, como se este gesto pudesse expurgar a dor que eu havia gravado em suas linhas.
Observei-me no espelho e vi além da aparência marcada pelos anos. Dentro de meus olhos vi o caminho da busca incessante de um porto seguro.
Reconheci que para seguir, é preciso se desfazer das bagagens extras, dos pesos desnecessários. Fui me desfazendo de tudo que me pesava a alma, ciente de que a melhor forma de seguir, é não permanecer preso em situações de nossa história onde fomos fracassados.

Persisti na busca, e hoje, acredito que encontrei. Vou ancorar meu barco, recolher as velas. Caminharei agora com passos decididos de quem sabe onde quer chegar. Pois já não caminho mais sozinho.

terça-feira, 24 de março de 2015

ERROS QUE TRANSFORMAM


Caminhava a passos trôpegos pelas ruas ainda molhadas da forte chuva que desabara no final daquela tarde. Seguia alheio aos passantes, que o julgavam com o olhar duro de quem se julga superior, apenas por não ter suas misérias visíveis aos olhos dos outros.
Ele não havia consumido nenhuma gota de álcool, mas seu caminhar vacilante vinha do peso que carregava dentro de si.
Fez sua paragem na entrada do parque, onde seu olhar perdido afastou um casal de adolescentes. Ou talvez suas roupas sujas e molhadas ainda da chuva, aliada ao desespero que transparecia em seu rosto, tenham feito dele uma pessoa a ser evitada.
Desviou do banco onde momentos antes o casal estivera, e sentou-se na relva, fria e ainda molhada. Assim como ele se encontrava, molhado e frio. Apenas suas lágrimas desciam quentes, se misturando aos resquícios da chuva que molhou seu corpo, e se perdiam, fundindo-se com a água que agora pingava entre suas pernas dobradas.
Os erros sempre cobram um preço que não aceita nota promissória. Não há como fugir das conseqüências.
Vivia a triste realidade daqueles que desejariam voltar no tempo e modificar seus passos. Hoje conseguia enxergar como caminhou perdido por caminhos que julgava conhecer. O bem que conhecemos, nem sempre atinge nossas ações. E naquele momento, ele mais que ninguém era capaz de atestar com a vida essa verdade tão absoluta e dura.
Caminhou até o pequeno riacho e se agachou em sua margem. O reflexo projetado lhe fez se sentir diante de um desconhecido. Não se reconhecia naqueles olhos tristes que o encaravam de dentro da água. Não sabia se via acusação ou remição.
O mais duro de nossos erros é que tantas vezes não pagamos o preço sozinhos. Tornamos coletivo um erro que só pertence a nós. Imputamos dor em quem não deveria se tornar Cirineu de nossas dores.
Ah se pudéssemos tirar do outro a cruz que nós mesmo lhe jogamos aos ombros. É injusto que sobrecarreguemos outros com nossas imperfeições. Mas sendo imperfeitos e necessitando conviver, como resolver essa equação? Como equalizar na convivência essa realidade?
Lembrou-se das palavras duras que recebeu, quando foi acusado de pensar somente em si, de não agir com o outro como gostaria que agissem consigo mesmo.  
Agitou a água com as mãos e viu seu reflexo se desfazer num borrão. Levantou-se sem saber que direção seguir. Não apenas do caminho físico, mas também de sua vida. O prosseguimento necessita a adequação dos desajustes. E para isso é preciso exercitar o esquecimento. Mas esquecer lhe parecia buscar o caminho mais fácil, onde esquecer a dor causada e o sofrimento do outro lhe permitiria seguir sem se preocupar com a caminhada de quem ganhou o peso da dor. E os caminhos fáceis lhe soavam como covardia.
Talvez o caminho só pudesse ser retomado, porém em novas direções, se a misericórdia florescer. Quem erra precisa encontrar um espaço onde a misericórdia o possibilite reorientar condutas.
Preso nestes pensamentos, seguiu o caminho. Ainda não tinha uma rota definida. Ainda não sabia se o novo caminho o levaria a estações mais tranquilas. Mas sabia que precisava caminhar.
Existirá talvez entre nós alguém que nunca tenha sentido a necessidade de ser olhado com misericórdia? Os que acusam e os que defendem... Não somos nisso todos iguais?