segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Relógio de parede


O domingo se aproximava do seu desfecho e eu, recostado na cadeira após horas de leitura, deixava-me tomar pelo silêncio que envolvia a casa. Pela janela aberta, entrava uma brisa suave e refrescante. O céu se revestia de nuvens violetas desbotadas. As folhas das árvores dançavam embaladas pela sintonia do vento. Procedente da sala, vinha o tique-taque rítmico do relógio de parede que, incansável, conta o tempo segundo a segundo. Lembrei-me de minha infância, quando este mesmo relógio me chamava a atenção na casa de minha vó. Tantas vezes ele parecia surrupiar o tempo, correndo apressado, deslizando sob mim aos montes, como trechos derrapantes de gelo na rodovia. Tantas outras vezes, ele brincava de retardar o tempo, nos fazendo esperar ansiosos por um momento que nunca chegava. Olho para ele e lembro-me de minha vó de avental de chita, mãos sempre sujas de farinha, do árduo e, para ela, gratificante trabalho de transformar os ingredientes os mais variados, em deliciosas guloseimas. Ela parava de frente ao relógio, apontava alguns números e dizia que ainda não era hora. E nós, crianças, ficávamos embevecidos acompanhando o tique-taque lento do relógio que movia tão suavemente os ponteiros que chegávamos a pensar que ele havia parado. Ah... o tempo de criança no qual desejávamos tudo e esperar era sempre um tormento. Lembro-me do tio Dico que batendo palmas nos punha a correr para fora de casa, dizendo que nossa impaciência não faria com que o relógio pulasse um segundo que fosse.
Relógio é a compreensão do tempo no espaço. Essa frase me marcou e ainda hoje quando me vejo preso no balançar do pêndulo do relógio, fico pensando sobre ela. Um pequeno espaço e o tempo ali, registrado! Paralisado a todo tempo.
Quando me deparo com fotos antigas, nas quais vejo que muitas vezes alguém já partiu desta jornada, eu viajo no tempo e me liberto das amarras do contável. Numa foto já amarelada pelo tempo, o sorriso captado de minha vó permaneceu sorrindo depois de mais de 30 anos. O relógio ao fundo, o mesmo que hoje ocupa a parede de minha sala, registrou o tempo. 15 horas, 12 minutos e 17 segundos. Ali eternizou o momento que o sorriso de minha vó abarcou o mundo todo e ainda hoje colore meus dias. O que a levou a sorrir? Num dos cantos da foto, dois tios parecem entabular uma conversa animada. Crianças aparecem espalhadas captadas pelas lentes da câmera. O sorriso de minha vó com certeza deve ter nascido da beleza da família reunida, da alegria de ver filhos, irmãos e netos reunidos, de cozinhar para todos o alimento mais saboroso, o da fraternidade.
Meu Deus! A simplicidade carrega consigo o cheiro da saudade. Tenho saudade do que deixei de ganhar ao lado dela. Trago comigo este sorriso eternizado no tempo.
O relógio na sala continua seu tique-taque, impassível diante do tempo e dos meus devaneios, do que passou, do que virá. Cumpre seu papel indiferente. Não tem consciência de que foi testemunha de muitos momentos marcantes, do caminhar de muitas vidas.
Tique-taque... tique-taque... Permaneço imerso em seus mecanismos que seguem ritmados o trabalho de contar o tempo, registrando os momentos passados.
Ah relógio... se tu pudesses me permitir voltar ao sorriso de minha vó, eu te entregaria dezenas de milhares de segundos  que desperdicei ao longo desta vida. Mas o  impassível relógio continuou inabalável a mover seu pêndulo dourado com uma graciosidade intocável.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Fraternidade


Gostaria de encontrar pessoas que sem meandros me explicassem o verdadeiro significado da palavra fraternidade. Não em citações do seu significado buscado em  dicionários, mas com atitudes concretas. Eu acredito que se banalizou muito o uso desta palavra, desprovida de seu verdadeiro valor.
Gosto muito de desmembrar as palavras lá em sua origem, onde mais fácil fica perceber o que a mesma deseja representar. No latim, fráter significa irmão. Então a fraternidade deve nos levar a vivermos em união, como irmãos. Mesmo que em nossos tempos com uma frequência maior, os laços de sangue já não sejam uma premissa para o amor, a definição nos ajuda a entender o objetivo mor da fraternidade.
Depois, remetendo aos conceitos filosóficos, a fraternidade vem atrelada às ideias de liberdade e igualdade, que constituíram grande parte do pensamento revolucionário francês. Desta forma, meu entendimento me faz acreditar que a fraternidade carrega consigo uma grande responsabilidade e nos suscita um grande compromisso que é o de amar aos outros como irmãos, no respeito, na liberdade do outro ser quem é e na igualdade entre os pares.
Vejo esta palavra surgir com frequência, mas não vejo a sua aplicação equiparada à sua citação.
Estive por um ano e meio prestando serviços numa organização religiosa evangélica. A primeira coisa que notei, foi que em nenhum momento me senti diferente, deixado à margem, tratado como alguém que não pertencesse ao meio. Sempre fui tratado tão carinhosamente por pastores, pastoras, membros e funcionários daquela igreja, que verdadeiramente ali eu encontrei a tão falada fraternidade. E ali, mesmo não professando a mesma fé, nunca me olharam com olhos que não de amor. E então constatei que a fraternidade é como uma criança de colo que estende os braços a quem a deseja.
Como católico, tenho sentido falta desta fraternidade mais vivida que falada. Frequento há mais de trinta anos a mesma comunidade, e tantas vezes percebo como me sinto sozinho lá, como tantas vezes parecemos mais figurantes numa peça teatral, apenas ocupando espaços sem ao menos sabermos quem é o outro que está tão perto.
Minha noiva com certeza identificaria o problema e me transmitiria sua percepção com apenas um olhar. E eu não posso de fato desdizer do que ela pensa. Eu de fato sou uma pessoa difícil de relacionar. Mas não porque eu não saiba acolher o outro e respeitar as diferenças, mas porque sou muito entranhado em mim mesmo, um bicho do mato como ela mesma diz. Minha timidez afasta, talvez porque a vejam como prepotência. Sou de falar pouco quando diante de alguém que não conheça muito bem, e logo a conversa acaba não rendendo muito, e a pessoa pode até pensar que eu me enfadei e desistir de uma aproximação mais efetiva. Ela tem razão. Eu sou parte do problema. Mas mesmo como bicho do mato, aqueles membros daquela comunidade me alcançaram e me fizeram de fato me sentir um irmão com eles.
Mas independente disso, tenho observado como as pessoas ainda são muito presas naquilo que o outro tem a oferecer. Posso entrar e sair da igreja durante mais de 30 anos, sentando sempre no mesmo lugar, sem que as pessoas ao redor sejam capazes de oferecer ou retribuir um cumprimento de forma mais efetiva. Mas basta que adentre uma pessoa que carregue um título à frente do nome, para que se forme fila para cumprimentar e oferecer o melhor dos sorrisos. Então percebo que é fácil pregar a fraternidade, desde que não seja condição sine qua non que a viva também.  
E tudo isso tem me feito buscar ser mais fraterno, mesmo que o outro me olhe intrigado ou não me retribua. Talvez seja eu que precise primeiro me despir dos meus excessos, para que o outro encontre onde fazer morada em mim.
E pensando em tudo isso, eu percebo que sou muito crítico, que espero demais daqueles que dizem buscar viver como Jesus viveu. Afinal, somos todos vasos de barro sendo moldados pelo Criador. E muitos ainda são reticentes a estas mudanças.
Então, a segunda carta de São Paulo aos Coríntios, em seu capítulo seis, versículo doze, me ofereceu o que meditar:
“Nele não falta lugar para vós; em vós mesmos é que não tendes espaço.”

sábado, 13 de setembro de 2014

Sempiterno


O panorama era de urgências, cheio das pressas que nos tiram a beleza da paisagem do caminho. Buzinas que remetem à impaciência de quem não sabe esperar. Em meio à balbúrdia, visualizo um casal de idosos que há muito se desfez da celeridade que tem sido a regra de nossos tempos.

Observo embevecido, o passo moroso daqueles dois que pela sincronia dos movimentos, já caminham juntos há muito tempo. Não saberia dizer se ela se apoiava nele, ou ele nela. Mas espreitando os dois, eu poderia afirmar que seus corpos se moldaram de tal forma, que um se tornou o sustento do outro. Desaprenderam a caminhar sozinhos. E talvez, nem o desejem mais.

Caminham lado a lado em silêncio sagrado. Muito já foi dito. É tempo de contemplação. O caminhar deles destoa na multidão. Há muito perderam a pressa de chegar. Já colheram o essencial da vida, agora caminham admirando os frutos das sementes plantadas.

Encantado me permito abandonar minhas impaciências, para no caminhar daquele casal reabastecer minhas forças. Não os conheço. Não sei para onde vão, e nem quando vão chegar. Seus passos rompem lentamente os espaços, e não demonstram ter hora marcada para chegar.

Devaneio sobre a juventude deste casal. Quando se conheceram? Quais as dificuldades enfrentaram? Em que momento a balança deixou de pender para o passageiro e vergou para o eterno? Quando a aparência física se deteriorou, os movimentos se tornaram mais lentos, mais dependentes, quando a memória se tornou detenta do cárcere do esquecimento, o essencial permaneceu em toda sua robustez. O amor ágape sobrepujou tudo.

Os braços entrelaçados daquele casal foi minha oração. Que meus passos saibam caminhar também rumo ao que permanece. Que eu saiba investir no plantio da semente que um dia me dará frutos dos quais saborearei, ciente do trabalho investido no cultivo, das escolhas feitas, daquilo que abri mão em prol de algo mais definitivo. Que meus olhos se afastem do volátil tão fácil de conseguir, mas que se desintegra no tempo. Quero a beleza do que perdura até o fim. Quero abrir mão da pressa por já ter encontrado minha paragem definitiva.

E o olhar enlevado daquele casal foi meu amém.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Na Noite Escura


Ele sempre quisera entender as pessoas, romper o superficial que oculta o essencial. Talvez seja o medo que reprima a essência, ele pensava. Mesmo ainda tão novo para apreender a complexidade do mundo e dos seres humanos, ele já compreendera o quanto as pessoas tem medo da profundidade, preferindo muitas vezes transitar na superfície do eu.
Filho único, de uma família onde o silêncio só era rompido durante as discussões de seus pais, onde as brigas eram ganhas por quem gritava mais alto e nunca por quem possuía os melhores argumentos. Seu refúgio, um canto no quintal, onde por detrás de uma amoreira, ele guardava no vão do muro que dividia seus domínios com o do vizinho, seu único livro.
Na noite escura. Era o nome do livro. Um livro só de imagens abstratas, sem texto. Um livro de papel negro, papel vegetal e papel reciclado. Um livro composto de aspectos visuais. Ali, entre o muro e a amoreira, ele dava vida ao livro. Inseria personagens, criava histórias. Ele não entendia mesmo podendo sentir, que o livro era o espelho de sua alma.
Aos 12 anos, mesmo sabendo ler bem, nunca ganhara um livro. A primeira vez que pediu aos pais um livro, sua mãe riu tanto que chegou a chorar. Foi também a última vez que ele pediu.
Quando saia com sua mãe, quase sempre andava aos tropeços, pois insistia em observar as pessoas. Olhando mãe e filha rindo juntas em frente à vitrine de uma loja, ficava pensando o que poderia ter suscitado aquele riso. As pessoas passavam por ele vindas de toda direção, e ele tentava olhar em seus olhos para decifrar o que ia no coração. Ele havia lido em algum lugar que os olhos são os espelhos da alma. E ele queria ver a alma das pessoas, já que nas duas vezes que tentou encontrar a alma de seu pai, na primeira viu apenas um vazio, e na segunda, ganhou um forte tapa no rosto “para aprender a não encarar os mais velhos”.
Mas todas as vezes que buscava os olhos das pessoas, quando eles se encontravam com os seus, as pessoas logo desviavam os olhos, e ele se perguntava se todas as pessoas viviam presas dentro de si como ele.
Então seus olhos encontraram os olhos mais lindos que ele já vira. Não foi o acastanhado claro dos olhos que o fascinaram, mas sim a força que vinha deles, como dois pequenos sóis a irradiarem luz própria. E aqueles olhos não desviaram do seu olhar, e ele sentiu a vida que pulsava por aqueles olhos, indo até os recônditos de sua alma, iluminando todos os espaços que por 12 anos permaneceram escuros.
E quando sua mãe deu um forte arranco em seu braço, xingando impropérios, ele não se importou com a dor que se difundiu pelo braço.  Buscou na multidão aqueles olhos que não mais encontrou. Mas não importava, pois pela primeira vez na vida ele enxergava as cores da vida. E decidiu que aquela luz não mais se apagaria. Tira esse sorriso idiota do rosto e anda, disse sua mãe. E então ele se sentiu condoído pelos seus pais que viviam ainda presos na escuridão e por todos aqueles olhares apagados, valsando perdidos tristemente pela vida.

Mas para ele nada mais importava, ele havia chegado ao êxito de sua busca, encontrado a luz, ele havia enfim iluminado sua noite escura. 

sábado, 6 de setembro de 2014

O silêncio gritante das palavras


Pés cansados, alma alquebrada. Em meio ao vai e vem de uma cidade que nunca para, visualizei um canto de remanso onde poderia vitalizar o meu cansaço.
Procurei me desligar da vozearia ao meu redor, e fechei os olhos em busca de mim mesmo. Nada parecia dar certo, e eu desejava desistir. Assustei-me com o som de choro e imaginei se não seria eu a render-me ao peso que carregava dentro de mim.
Abri, receoso, os olhos e percebi que o choro sufocado vinha de uma senhora sentada a não mais do que dois metros de mim. Covardemente os fechei novamente. Pensava que atitude tomar. Nunca fui bom com os sentimentos alheios, não por falta de compaixão, mas por nunca saber como agir.
Olhei disfarçadamente para aquela senhora que chorava abraçada a um caderno, e quando nossos olhos se encontraram, não tive saída senão sentar mais perto e perguntar se ela estava bem. Ok. Entendo a estupidez da pergunta. Mas como alertei, nunca fui bom em lidar com estas situações.
A senhora limpou os olhos, me olhou demoradamente e, começou a me contar sobre seu filho. Havia duas semanas que ele abdicara da vida. 21 anos. Uma overdose de remédios, encontrado ao lado da cama num domingo que tinha tudo para ser um típico domingo de macarrão e boas  risadas. Ela o encontrou quando ao voltar da feira, não sentiu o cheiro característico do banho que seu filho tomava todo domingo pela manhã.
Abriu a porta, o cheiro que a recebeu foi o da morte. Seu filho havia desistido da luta. Ao seu lado, o caderno que agora ela abraçava, como se ele pudesse a qualquer momento se transformar em seu filho.
Contou-me ser ele muito fechado e triste. Mas que nunca poderia imaginar... Interrompeu suas palavras, sufocada pela dor. Estendeu-me o caderno e pediu-me que lesse para ela. Seus olhos andavam cansados, ela disse.
Iniciei a leitura da vida daquele rapaz que buscava externar sua dor, transformando-as em palavras. Suas poesias falavam de vida, mas também de dor, angústia, aflição e desilusão. Pedia ajuda diante do que incompreendia. Sofria, sem saber a raiz dos seus sofrimentos.
“Ah! A vida. Como entendê-la quando meus gritos soam mudos?” Assim ele iniciava uma página. E quanto mais eu lia, das dores e alegrias daquele rapaz, mais sua mãe parecia estar diante de um filho que nunca conheceu. Sua poesia era linda. De sua dor ele inundava o papel das mais belas e profundas palavras.
Aquela senhora recostou sua cabeça em meus ombros, e eu podia sentir suas lágrimas quentes banhando meu ombro. Seu filho se fora. Nada mais havia a ser feito por ele, mas suas palavras ainda podiam gerar transformações.
De repente então, comecei a ler mais alto, lendo suas palavras para que o vento as levasse. Para que da morte gerasse vida, semente de frutificação, de renovação, esperança.
Tive a impressão de que o vento carregou a voz daquele jovem que ecoava através da minha voz. Quando levantei meus olhos marejados, as palavras corriam de mãos dadas, fazendo roda, trenzinhos, correndo em círculos desconexos. E então começaram a cair sobre as pessoas que passavam, e eu posso jurar que através dos meus olhos embaçados, pude perceber os olhos daquelas pessoas se encherem de emoção e vida.
Voa palavra, gere vida onde a morte insiste em fazer morada. Ressuscite corações, nos traga primaveras.
E aquela senhora, também maravilhada com a dança das palavras, olhava para o céu onde muitas delas ainda continuavam a serem levadas pelo vento. Estendeu-me o caderno e pediu que eu ficasse com ele. Recusei diante do valor que o caderno teria na vida dela, como lembrança viva de seu filho. E depois de mais de duas horas de conversa, ela sorriu pela primeira vez. Leva contigo o caderno e solte ao mundo as palavras do meu filho, me disse ela. Eu o encontrarei em cada pessoa onde as palavras fizerem morada.
Peguei então o caderno, como o sacerdote ao tocar o cálice, o divino. E desde  o dia em que aquela senhora me presenteou com as poesias do seu filho, tenho me esforçado na tarefa de espalhar vida, de afugentar a dor, de levar um pouco de forças para quem precisa. E por isso escrevo, firme na promessa que fiz àquela senhora em honra de seu filho.  


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Fogão à Lenha


A lenha queimando no fogão me remetia ao desfiar de contas do rosário nas mãos das idosas que sussurravam ave-marias como um trem de ferro ganhando velocidade. Era incompreensível o que diziam, mas o som das diversas vozes trazia acalento ao meu coração. Assim era com o canto da lenha crepitando. Tempo de simplicidades, tempo de singelezas.
Saíamos cedo para buscar lenha e, muitas vezes, encontrávamos o sol saindo também para mais um dia de trabalho. A lenha, que era juntada nos braços, era como sonhos pegos pelo caminho. O trabalho se misturava com as risadas e o canto dos pássaros.
A lenha se fazia cinza para gerar calor. Cumpria seu papel. Como a lenha, eu desejava me consumir por um propósito maior. A lenha que queimava era também oração.
A lenha alimentava o fogão, e o café que estava sendo preparado tinha cheiro de felicidade.
Ali, ao redor da mesa, junto ao fogão, era o altar sagrado da convivência familiar. Todos eram bem-vindos e a alegria se multiplicava ao ser partilhada.
A única condição era depositar ao pé da porta de entrada qualquer forma de ter. Ali, só o ser encontrava lugar à mesa. Nos despíamos do status, depositávamos os doutores, os diplomas, os cargos, as hierarquias e, ao tomar cada qual seu lugar, todos se sentiam mais leves.
A mesa posta, a broa de fubá, o café ainda fumegando, os corações quentes. Então, Deus tomava seu lugar à mesa, nos concedia sua bênção e sorrindo, pedia que lhe passassem a manteiga. Naqueles instantes, a gente contava causos, brincava e acreditava que o céu se faz presença onde lhe preparamos a mesa.