O
domingo se aproximava do seu desfecho e eu, recostado na cadeira após horas de
leitura, deixava-me tomar pelo silêncio que envolvia a casa. Pela janela aberta,
entrava uma brisa suave e refrescante. O céu se revestia de nuvens violetas
desbotadas. As folhas das árvores dançavam embaladas pela sintonia do vento. Procedente
da sala, vinha o tique-taque rítmico do relógio de parede que, incansável,
conta o tempo segundo a segundo. Lembrei-me de minha infância, quando este
mesmo relógio me chamava a atenção na casa de minha vó. Tantas vezes ele
parecia surrupiar o tempo, correndo apressado, deslizando sob mim aos montes,
como trechos derrapantes de gelo na rodovia. Tantas outras vezes, ele brincava
de retardar o tempo, nos fazendo esperar ansiosos por um momento que nunca
chegava. Olho para ele e lembro-me de minha vó de avental de chita, mãos sempre
sujas de farinha, do árduo e, para ela, gratificante trabalho de transformar os
ingredientes os mais variados, em deliciosas guloseimas. Ela parava de frente
ao relógio, apontava alguns números e dizia que ainda não era hora. E nós,
crianças, ficávamos embevecidos acompanhando o tique-taque lento do relógio que
movia tão suavemente os ponteiros que chegávamos a pensar que ele havia parado.
Ah... o tempo de criança no qual desejávamos tudo e esperar era sempre um
tormento. Lembro-me do tio Dico que batendo palmas nos punha a correr para fora
de casa, dizendo que nossa impaciência não faria com que o relógio pulasse um
segundo que fosse.
Relógio
é a compreensão do tempo no espaço. Essa frase me marcou e ainda hoje quando me
vejo preso no balançar do pêndulo do relógio, fico pensando sobre ela. Um
pequeno espaço e o tempo ali, registrado! Paralisado a todo tempo.
Quando
me deparo com fotos antigas, nas quais vejo que muitas vezes alguém já partiu
desta jornada, eu viajo no tempo e me liberto das amarras do contável. Numa
foto já amarelada pelo tempo, o sorriso captado de minha vó permaneceu sorrindo
depois de mais de 30 anos. O relógio ao fundo, o mesmo que hoje ocupa a parede
de minha sala, registrou o tempo. 15 horas, 12 minutos e 17 segundos. Ali
eternizou o momento que o sorriso de minha vó abarcou o mundo todo e ainda hoje
colore meus dias. O que a levou a sorrir? Num dos cantos da foto, dois tios
parecem entabular uma conversa animada. Crianças aparecem espalhadas captadas
pelas lentes da câmera. O sorriso de minha vó com certeza deve ter nascido da
beleza da família reunida, da alegria de ver filhos, irmãos e netos reunidos,
de cozinhar para todos o alimento mais saboroso, o da fraternidade.
Meu
Deus! A simplicidade carrega consigo o cheiro da saudade. Tenho saudade do que
deixei de ganhar ao lado dela. Trago comigo este sorriso eternizado no tempo.
O
relógio na sala continua seu tique-taque, impassível diante do tempo e dos meus
devaneios, do que passou, do que virá. Cumpre seu papel indiferente. Não tem
consciência de que foi testemunha de muitos momentos marcantes, do caminhar de
muitas vidas.
Tique-taque...
tique-taque... Permaneço imerso em seus mecanismos que seguem ritmados o
trabalho de contar o tempo, registrando os momentos passados.
Ah
relógio... se tu pudesses me permitir voltar ao sorriso de minha vó, eu te
entregaria dezenas de milhares de segundos que desperdicei ao longo desta vida. Mas
o impassível relógio continuou
inabalável a mover seu pêndulo dourado com uma graciosidade intocável.




