terça-feira, 23 de dezembro de 2014

AUSÊNCIA


Ao abrir os olhos o dia parecia tão diferente enquanto ao mesmo tempo tão comum. Os  “bons dias” foram os mesmos, a rotina também seguiu seu curso. Só o coração teimou em não aceitar que tudo continuasse igual. Existia uma perda e uma saudade.
Na frente do espelho ele se observava, os olhos ainda vermelhos de uma noite mal dormida e das lágrimas que, suavemente traçaram um caminho constante de seu rosto ao seu travesseiro. Os olhos estavam inchados, e ele se perguntava o que faz com que alguém se torne tão marcante em nossas vidas, em tão pouco tempo.
Mesmo diante de perguntas sem respostas, a única certeza que ele possuía era a de que sua dor era de fato real. Ah, como ele temeu por este dia, e como sabia que um dia ele chegaria, porém não acreditava que fosse tão rápido e tão carregado de dor.
Lavou o rosto e se apoiou na pia deixando que o calor de suas lágrimas formassem sulcos onde a água fria ainda escorria. Observou os sinais do tempo já presentes em seu rosto. Lembrou-se do sorriso dela e por um momento pareceu que também sorria, mas tudo que viu foram mais evidências do tempo. O sorriso dela sempre inundou seu coração de uma paz que palavras não poderiam nunca explicar. Ela se tornara especial antes mesmo que ele tivesse a chance de olhá-la nos olhos. 
Recordou com saudade e dor da presença dela, da voz que aos seus ouvidos sempre pareceu uma sinfonia dos anjos. A risada dela que tornava impossível não rir junto. O toque suave de suas mãos macias que descarregava uma carga elétrica por seu corpo sempre que ela o tocava.  E o tempo? O tempo que peralta brincava de roubar as horas quando ele podia estar com ela.
Naquele dia, todos que com ele encontraram questionaram seu jeito distraído, seus olhos vermelhos, seu semblante abatido. Por um curto momento ele olhava aquelas pessoas na esperança de que as perguntas carregassem consigo um desejo real de conhecê-lo profundamente. Mas rapidamente ele percebia que as perguntas carregavam apenas a etiqueta de uma relação social. Dizia estar bem e isso parecia aliviar o coração daqueles que não queriam de fato se aprofundar nas dores dos outros.
Sem se dar conta, ele se viu parado próximo ao local onde os dois foram naquela noite tão mágica. Caminhou a passos trôpegos até onde se sentaram e onde seus braços a enlaçaram. Sentou-se no mesmo lugar, e seus olhos varreram a paisagem que naquele momento não possuía mais a mesma cor e a mesma vida de quando estava com ela.
Fechou os olhos e reviveu novamente o momento onde os lábios dela tocaram os seus. Nunca conseguiria esquecer aquela sensação de ser alçado aos céus, o momento onde olhou dentro dos olhos dela e ali se viu. O momento onde ambos nada precisaram dizer, porque tudo já havia sido dito.
Agora ali sentado, ele sabia que aquele momento foi a ruptura onde ele a ganhou e a perdeu. Nada mais poderia ser como antes. Olhando o vazio ao seu lado, ele se deu conta de que teve a chance de mantê-la para sempre ao seu lado, mas não soube cuidar do que lhe foi confiado. Ela lhe apresentou um coração ferido, ainda em recuperação, e ele se esqueceu da fragilidade que nela habitava.
Neste momento, a dor também o dilacerava, porque ele não compreendia as matizes do amor. Como ele poderia fazer com que ela o perdoasse por ter amado tanto, por ter se esquecido que salvá-la disso tudo valia muito mais?

Levantou-se e foi embora. No peito carregava os sonhos, os desejos nunca revelados. E o peso de saber que o vazio que ela deixou, era a prova inequívoca de que ela também sofria.

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