Ele
sempre quisera entender as pessoas, romper o superficial que oculta o
essencial. Talvez seja o medo que reprima a essência, ele pensava. Mesmo ainda
tão novo para apreender a complexidade do mundo e dos seres humanos, ele já
compreendera o quanto as pessoas tem medo da profundidade, preferindo muitas
vezes transitar na superfície do eu.
Filho
único, de uma família onde o silêncio só era rompido durante as discussões de
seus pais, onde as brigas eram ganhas por quem gritava mais alto e nunca por
quem possuía os melhores argumentos. Seu refúgio, um canto no quintal, onde por
detrás de uma amoreira, ele guardava no vão do muro que dividia seus domínios
com o do vizinho, seu único livro.
Na
noite escura. Era o nome do livro. Um livro só de imagens abstratas, sem texto.
Um livro de papel negro, papel vegetal e papel reciclado. Um livro composto de
aspectos visuais. Ali, entre o muro e a amoreira, ele dava vida ao livro. Inseria
personagens, criava histórias. Ele não entendia mesmo podendo sentir, que o
livro era o espelho de sua alma.
Aos
12 anos, mesmo sabendo ler bem, nunca ganhara um livro. A primeira vez que
pediu aos pais um livro, sua mãe riu tanto que chegou a chorar. Foi também a
última vez que ele pediu.
Quando
saia com sua mãe, quase sempre andava aos tropeços, pois insistia em observar
as pessoas. Olhando mãe e filha rindo juntas em frente à vitrine de uma loja, ficava
pensando o que poderia ter suscitado aquele riso. As pessoas passavam por ele
vindas de toda direção, e ele tentava olhar em seus olhos para decifrar o que
ia no coração. Ele havia lido em algum lugar que os olhos são os espelhos da
alma. E ele queria ver a alma das pessoas, já que nas duas vezes que tentou
encontrar a alma de seu pai, na primeira viu apenas um vazio, e na segunda,
ganhou um forte tapa no rosto “para aprender a não encarar os mais velhos”.
Mas
todas as vezes que buscava os olhos das pessoas, quando eles se encontravam com
os seus, as pessoas logo desviavam os olhos, e ele se perguntava se todas as
pessoas viviam presas dentro de si como ele.
Então
seus olhos encontraram os olhos mais lindos que ele já vira. Não foi o
acastanhado claro dos olhos que o fascinaram, mas sim a força que vinha deles,
como dois pequenos sóis a irradiarem luz própria. E aqueles olhos não desviaram
do seu olhar, e ele sentiu a vida que pulsava por aqueles olhos, indo até os recônditos
de sua alma, iluminando todos os espaços que por 12 anos permaneceram escuros.
E
quando sua mãe deu um forte arranco em seu braço, xingando impropérios, ele não
se importou com a dor que se difundiu pelo braço. Buscou na multidão aqueles olhos que não mais
encontrou. Mas não importava, pois pela primeira vez na vida ele enxergava as
cores da vida. E decidiu que aquela luz não mais se apagaria. Tira esse sorriso
idiota do rosto e anda, disse sua mãe. E então ele se sentiu condoído pelos
seus pais que viviam ainda presos na escuridão e por todos aqueles olhares
apagados, valsando perdidos tristemente pela vida.
Mas
para ele nada mais importava, ele havia chegado ao êxito de sua busca, encontrado a luz, ele havia enfim
iluminado sua noite escura.
Um comentário:
Menino vitorioso, depois de buscar, lutar, sofrer, encontrou com sua resplandecente Alma.Siga em frente menino, não olhe para trás, a luz irradiante da sua alma, sempre iluminara o caminho da sua vida.
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