sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Amor paternal



Hoje acordei com uma vontade enorme de ser pai. Sempre alimentei este desejo, mas hoje ele pareceu falar mais forte, tão forte que cheguei a escutar uma voz me chamar de “papai”. Sorrindo e com os olhos marejados pela emoção da palavra recebida, olhei para o banco do carro e não vi ninguém, eu estava ali sozinho.
Mas este desejo foi aumentado pela cena presenciada de dentro do carro. No portão da casa, o pai pacientemente colocou os dois filhos pequenos na garupa da moto, saiu em marcha lenta, dando uma pequena volta pela rua sem saída, e parando novamente na porta de casa. Ao descerem da moto, o pai se agachou e os dois meninos se entrelaçaram em seu pescoço num abraço apertado, cheio de beijos.
Pacientemente o pai conversou com seus dois filhos que não paravam de falar. Por mais de três vezes o vi dizendo que precisava ir, porém sem perder a paciência com seus pequenos, pedaços de sua vida, três que formavam um só...
Quando o pai subiu na moto, e sumiu dobrando a rua, os pequenos braços ainda se agitavam num aceno ao pai.
Quanto mais o tempo passa, maior é o desejo de ver perpetuar em outro ser um pouco daquilo que sou. Não quero ser um pai distante da realidade dos meus filhos, por isso o desejo de conviver com eles antes que os anos nos tornem tão distantes um do mundo do outro.
Quantas vezes já senti vontade de escrever para meus filhos, antes mesmo deles existirem.
Quando os dois pequenos foram colocados para dentro de casa pela empregada, perguntando se o pai demoraria a voltar, meu pensamento foi remetido para outra cena.
Sentado no último banco da igreja, um casal de idosos acompanhado pelo filho tomou lugar logo à minha frente. O filho por várias vezes perguntou ao pai se o mesmo sentia frio, e ofereceu sua blusa. Logo em seguida brigou com o pai por estar sem o aparelho de surdez.
Me prendi nestes dois opostos....num o pai cuida carinhosamente de seus filhos, no outro, o pai vira filho e passa a ser cuidado, dependente...
Sim, os filhos crescem, mas eu quero ter guardado na memória aquele momento tão significativo, tão marcante dos pequenos envoltos no pescoço do pai. Eternizar na memória um momento que o tempo levará consigo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Arrependimento


Fui tomado por um sentimento nostálgico muito forte. Creio não existir ninguém que nunca tenha sido tomado pelo desejo de voltar atrás e consertar algo que foi feito de forma errada, ou mesmo fazer algo que deixou de ser feito. Vi-me tomado por pensamentos dolorosos. Desejo imenso de ser capaz de voltar o tempo e consertar todos os erros cometidos, me redimir de todas as mágoas causadas, retirar todo sofrimento que causei àqueles que amo. Quantas amizades foram perdidas por uma palavra dita num momento errado, por uma atitude mal pensada. Quantas lágrimas derramadas por arrependimentos passados.
Quantas vezes um pedido de perdão não foi capaz de estancar o coração do outro que sangrava. Meu Deus, sou humano demais... como incutir no coração das pessoas que sou cheio de fragilidades, e que elas também me doem?
O que mais dói é quando alguém chega até você e diz que você matou o sonho delas.
Senti que não valia mais a pena viver, entreguei-me a um estado deplorável de culpa e arrependimento.
Derramei um oceano de lágrimas por coisas que não poderia mais mudar, porque ficaram no passado, mas senti que precisava aliviar a dor do meu peito. Construí imensos castelos ao lado de pessoas maravilhosas. Mas zelei demais pelos castelos e esqueci-me daqueles que me ajudaram a erguê-los. Fiquei sozinho, eu e meus castelos. Sentei-me sozinho e observei a água ir desmanchando os castelos que já não tinham mais valor para mim.
Descobri que o arrependimento durante a vida concorre para a melhoria do Espírito, mas ele tem que expiar o seu passado.
Nada de entregar-te ao desalento ou ao remorso. Da mesma forma como não deves insistir no propósito inferior, não te podes deixar consumir pelo arrependimento. Este tem somente a função de conscientizar-te do mal feito. Perdoa-te, encoraja-te e dá início à tarefa de reequilíbrio pessoal, diminuindo e reparando os prejuízos causados.
Já fui consumido demais pelo arrependimento, e isso não me ajudou a tornar melhor quem magoei. Algumas vezes não sei como reparar ou diminuir os prejuízos causados. Espero apenas que o tempo mostre a estas pessoas, que talvez o melhor tenha sido me deixar fora da vida delas, e que aqueles que hoje convivem comigo possam entender minhas fraquezas e ajudar-me a ser melhor.
Porque quem sofreu a decepção como eu sofri com aqueles que tanto amei, sabe a dor que também somos capazes de causar nas pessoas que nos amam.
Um novo início só é possível quando um término acontece, e acredite, em alguns momentos, o fim é o que melhor pode nos acontecer. Acredite.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Saudade


Valorizo as pessoas que sabem ser desprendidas de situações, de lugares, de pessoas, de problemas. As pessoas que assim vivem, para elas saudade é uma coisa que não pega de jeito. O peso que ela faz é algo suficiente e saudável. Sente saudade do cheiro de casa, saudade do colo da família, dos amigos, das situações vividas, mas tudo isso com uma saudade que não machuca.
Conheci pessoas assim. Que podem estar num lugar por anos, mas que se preciso for mudam de estado, de país, com uma serenidade tremenda.
Quando meu irmão entrou para a Comunidade Missionária de Villaregia, e lá freqüentávamos com freqüência, uma das coisas que mais me chamavam a atenção, e para mim era um dos maiores empecilhos para que eu pudesse fazer parte desta comunidade, era a sua missão “ad gentes”, o ser comunidade para a missão, o estar onde for preciso, ir onde for mais necessário. E sempre que eu me apegava a alguém da comunidade, chegava o momento daquela pessoa partir, ir onde outros talvez estivessem precisando mais dela. E assim eu via tantos partirem, algum indo sem a certeza se um dia nos veríamos de novo, mas iam todos com uma alegria e um desprendimento que me tocavam profundamente. Creio que eu sofria mais com a partida deles do que eles próprios.
Descobri que lugares são coisas que me prendem. Lugares, cheiros, situações, pessoas. Sou de criar raízes, por isso as mudanças me doem tanto, porque preciso ser arrancado pela raiz, e sempre fica um pedaço de mim de onde sou arrancado.
Um dia destes, eu estava passeando aqui por BH, e mesmo na correria do dia, eu vi tantos lugares carregados de lembranças, de vida. Momentos vividos com pessoas especiais, pedaços de vida partilhados e que talvez nem se repitam mais. Coisas tão simples que marcam minha alma. A praça onde me sentei ao lado de pessoas especiais, onde partilhei histórias, o barzinho onde juntos tomamos cerveja e deixamos o tempo passar...
Descobri que as pessoas sempre partem, e quando partem, não é exatamente outro ser que partiu, e sim alguém dentro de mim que se perdeu ou morreu.
Sofro por ser apegado demais às coisas. A distância de quem gosto me dói forte demais. Hoje descobri que quero fixar raízes, mas não em algum lugar definido ou específico. Estou aberto a estar em qualquer lugar, desde que esteja com quem me faz melhor, desde que eu me sinta completo.
Os pensamentos são confusos? Sentimentos são para serem vividos, não explicados.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Estamos semeando desigualdades


Consumir já não é mais um simples suprir de nossas necessidades mais básicas. Somos levados a consumir de uma forma quase automática, levados pela imposição dos meios de comunicação e pelo desejo constante de estarmos dentro dos padrões ditados pela moda.
Que moda é essa que nos satisfaz pelo tempo inferior ao vencimento de nossos cartões de crédito? A volatilidade da moda nos leva ao desejo de consumir com uma freqüência cada vez menor.
O celular que compramos hoje, amanhã precisa ser trocado, não porque não atenda mais nossas necessidades, mas porque não supre mais nosso desejo de estarmos destacados numa sociedade que valoriza o ter.
Não conseguimos acompanhar o marketing que nos joga a todo momento na cara que devemos consumir para sermos realizados e felizes. Que felicidade é esta que nos aprisiona em símbolos de um falso ser? Somos mais que simples cabides ambulantes de marcas que ostentam glamour.
Nos tornamos propagadores da desigualdade social. Julgamos a pessoa pelo que ela consome, e criamos degraus sociais, excluindo e fazendo com que o outro entenda que só fará parte dos primeiros degraus quando se tornar também um voraz consumidor.
Distorcemos valores e nos tornamos desagregadores. Até quando seremos objetos na mão de um consumismo totalmente distorcido de valores? Nossa sociedade não valoriza mais o agregar conhecimentos, mas o agregar bens de consumo, transformando-se numa grande cultivadora de desigualdades.
Vamos consumir com responsabilidade, sem deixar de nos centrar no valor intrínseco de cada ser humano.

domingo, 23 de agosto de 2009

A dor de quem fica


Descobri que não sei conviver com a dor alheia. A dor do outro me machuca mais que minhas próprias dores por vezes. Com minhas dores sei dialogar, mas como dialogar com a dor do outro? Entendo então o motivo que velórios sempre me constrangem. Me deparar com aquele que perdeu um ente querido, e não ser capaz de formular nenhuma palavra de consolo, mostra minha inutilidade. Ofereço por vezes apenas meu abraço e minha presença como indicativo de que estou ali, de que sofro junto, de que morro um pouco diante da dor daqueles que ali estão.
No momento que o outro é tomado pela dor, dizer palavras de consolo, falar do amor de Deus, tentar mostrar o lado bom da situação, não acho que seja o mais apropriado naquele momento, porque a dor nos cega e nos tira o chão. Claro que aqueles que tem o dom da palavra, devem se manifestar. Mas eu entendo que a presença é sempre o melhor a se oferecer nestes momentos, porque com a presença você diz ao outro que também não sabe explicar a dor dele, mas que quer partilhar com ele daquele sofrimento.
A dor do outro é um território muito particular. Cada um reage de um jeito diante da dor, não existem regras de como a dor deve ser enfrentada. Respeitar o outro é sempre a melhor forma de ajudá-lo a superar a dor. Não vá com discursos prontos, eles nem sempre encontram terreno onde germinar.
Acredito que o mais difícil da perda seja saber que o outro se foi e que muito ficou a ser dito. E o pior, é saber que não resta mais o que fazer, aquele que se foi já não pode escutar que nós o amamos.
Um vizinho ficou por 10 anos sem conversar com o pai por motivos de briga entre seus pais por causa de pensão. Estranho que quando a pessoa ainda está viva, nosso orgulho teima em nos afastar, mas quando recebemos a notícia da morte daquela pessoa, tudo ganha uma nova visão. Ao receber a notícia da morte do pai, tudo se transformou, e ele ficou por horas seguidas ao lado do caixão, ninguém o conseguia tirar dali. Não saiu nem para comer, nem para descansar, e só abandonou o caixão no momento que ele foi enterrado. Triste imagem.. como dizer a ele que seu pai já não estava ali? Que ele se desculpava diante de uma matéria, daquilo que um dia recebeu a essência de seu pai?
Triste somos nós quando não seguimos aquilo que realmente nosso coração nos pede, e por vezes esperamos demais por um amanhã que muitas vezes não chega.
Por que esperar o amanhã se temos o hoje? Quando aprendermos a viver as coisas no hoje, não teremos que ver o amanhã morrer antes mesmo de chegar.

sábado, 22 de agosto de 2009

Quem são os loucos?


Era uma tarde de um céu tão azul, que chegava a afrontar o cinza que inundava minha alma. Eu estava sentado junto à calçada, numa rua de pouco movimento, observando o silêncio e o barulho que ele fazia em mim. Minhas escolhas falavam em mim, insistindo as más em se tornarem mais presentes.
Sentado ali eu me sentia acabrunhado por todo o peso de tantas coisas que insistiam em se derramar em profusão sobre mim num mesmo momento.
A alma sensível por vezes teima em nos machucar. “A alma sensível é como harpa que ressoa com um simples sopro”. Se não me engano foi Beethoven que disse isso. Sinto muito esse ressoar de minha alma com simples sopros, simples brisas que me trazem recordações, sentimentos. Naquele momento então uma simples brisa tinha trago uma carga muito alta de sentimentos, e já sentia meus olhos marejarem quando percebo a aproximação de um rapaz carregando um monte de ferramentas, e puxando um carrinho cheio de madeiras.
Ele se postou a uma pequena distância de mim, do outro lado da rua, e começou a descarregar seu carrinho. Percebi ao vê-lo trabalhando, que ele estava fazendo casinhas para cachorros. Porém ao trabalhar, ele ficava falando sozinho, como se estivesse conversando com alguém. Por vezes até parava de martelar e se erguia gesticulando e falando sem parar.
Louco! Foi meu primeiro pensamento. Já esqueci as lágrimas e me vi sorrindo daquela figura que martelava madeiras e falava sozinho.
Mas meu riso durou apenas o instante dele se virar, me notar e vir em minha direção. Pensei comigo: Tenho o poder de atrair os loucos!
Não havia como me safar. Respirei fundo e me preparei para o embate.
De início começou a falar sobre seu trabalho, como tinha encontrado madeira para seus trabalhos, e como daquilo faria seu lucro. Falava com entusiasmo, seus olhos brilhavam. Começou a divagar sobre outros assuntos, e percebi que queria apenas atenção, porque eu mal abria a boca. Falou da convivência humana, dos sentimentos que tanto negamos e sufocamos em nós, falou da educação deficiente que não permite às crianças exercitarem o pensamento, do comodismo que a sociedade se encontra, dos julgamentos que fazemos sem mesmo conhecer o outro, da falta de solidariedade que faz nos trancarmos dentro de nós mesmos, e anunciou que estávamos diante do fim do mundo, porque o amor já não era mais exercitado.
Durante uma hora ele falou, e eu apenas concordava, até mesmo um pouco envergonhado por ter feito um julgamento antecipado dele. Ele se foi com suas ferramentas e suas caixas, e ainda falava sozinho, por vezes parava como se conversasse com alguém ao seu lado, e depois prosseguia seu caminho.
Por um tempo permaneci ali meio abobalhado, quando uma vizinha que da janela observou nossa conversa, me disse que não desse atenção, que o rapaz era um doido que falava sozinho pelas ruas. Não me contive. Perguntei a ela quem era verdadeiramente doido? Quem se expressa sem medo ou quem vive de acordo com as normas da sociedade? Louco é quem não admite sua loucura diante de uma sociedade individualista. Quero ter a loucura de amar sem limites, a loucura de questionar, a loucura de acreditar no próximo.
Não consegui terminar, a senhora entrou antes que eu concluísse.
Caí em mim, gritei por aquele rapaz que já ia longe. Gritei um obrigado, se ele entendeu não sei, mas abanou a mão e prosseguiu seu caminho. Eu acabara de me descobrir também um louco, mas um louco que ainda teima em julgar os outros.
Percebi que aquele rapaz era um louco pelo tanto que desejava transformar o mundo, pelos sonhos que tinha de uma nova humanidade. Creio que ele buscou fugir da realidade para conseguir conviver com seus anseios.
Que a humanidade seja louca como este rapaz, louca de um desejo de transformar o mundo com pequenos gestos, louca de desejo de amar...

Não caminho sozinho


Hoje meu dia amanheceu de um cinza pesado. Tão denso estava que me pesava nos ombros. Arrastei-me pela cama mas não consegui me levantar, permaneci sentado aguardando as forças que me tirariam dali. Mas não havia o desejo de sair, ali eu me encontrava protegido, escondido dos meus problemas, de minhas angústias. Sabia que ao transpor a porta, daria de cara com todos eles, com tudo aquilo que angustiava minha alma… estavam todos ali, à porta, me esperando… não havia como fugir. Percebi que não adiantaria também eu permanecer ali escondido, porque eles estariam sempre a me esperar, pelo tempo que fosse preciso.
Reuni forças, me coloquei de pé. Por longos minutos permaneci com a mão na maçaneta da porta, reunindo as últimas forças. Quando abri a porta, eles estavam realmente lá, todos ávidos pela minha presença. Se jogaram de uma só vez em cima de mim, me obrigando a dar um passo para trás. Não havia mais o que fazer, eles não iriam sair dali até que cumprissem o seu papel. Só me restou distribuí-los melhor em meus ombros, de forma a se tornar mais fácil o caminhar. Saí trôpego do quarto, precisei me amparar na parede lateral… mas de repente me veio a sensação que naquele dia eles estavam mais leves, estavam mais fáceis de carregar. Percebo então uma presença ao meu lado, e vejo que Deus ali estava, ajudando-me a carregar o meu fardo. Ele não me recriminou, não me cobrou explicações…para Ele não importava como estes problemas chegaram até mim, Ele sabia muito bem quando eu havia me perdido no caminho. Ele voltou para me buscar, sem recriminações, sem cobranças… simplesmente voltou e não disse que tudo seria fácil, mas disse que caminharia comigo. Ele sorriu para mim, retribui o sorriso meio desconsertado, e caminhamos lado a lado…

Aprendendo com momentos


Em toda a minha vida protagonizei e presenciei momentos. E com tudo o que já tinha visto, me perdia em um mar de perguntas, de respostas, de falta de compreensão.
Sempre observei como pessoas reagiam a circunstancias da vida, em momentos de desespero, momentos de solidão, mais também nos momentos de alegria, momentos de paz e confraternização. Sem saber participei de momentos que se realizavam longe de mim, presenciei momentos que ainda faltavam acontecer.
Vivi e ouvi momentos sem mesmo poder enxerga-los. E assim questionava momentos sem mesmo poder escuta-los. A cada dia um novo momento e a cada dia nascia assim um novo sentimento.
Sinceramente se eu fosse contar a vocês todos os momentos de minha vida, ficariam perplexos do que aqui escutariam, já presenciei momentos de tristeza de batalhas mais de muita determinação, mais quando o ano terminava entendia que tudo aquilo que eu tinha presenciado foi para agora poder olhar para momentos que me faziam feliz, para poder estar junto de tudo que me fazia feliz.
Confesso que levei um tempo para conseguir enxergar além do que eu estava a presenciar e sinceramente não sei se ainda estou pronto para isso.
Mais será que todos estamos? Certa vez me perguntaram por que os homens com esses seus espelhos mágicos nada vêem além de si mesmos?
Por que em meio a alguns momentos eles resolvem fazer tudo errado? E fazem assim do chão aonde pisam um nefasto campo minado. Respondi que por que embora o homem se julgue forte, destemido, e de muita coragem, a momentos que ele se torna apenas um garoto. Perdido, esquecido, desesperado.
Mas é uma pena, por que ao longo de minha ainda jovem vida, descobri que o homem em vários momentos tomou atitudes que até um simples garoto saberia qual seria o resultado. Dor, sofrimento, falta de esperança, e assim mais um coração acorrentado.
Então percebi que todos esses momentos foram vivenciados para outros também vivenciarem outros momentos. Talvez não igual ao passado, mais momentos melhores ou piores.
Afinal não sabemos o que a vida nos reserva mais sabemos que a vida se dirige do jeito que a ensinamos, e toma rumos de acordo com as atitudes que tomamos. Então certa vez questionei a um velho sábio para que serviam realmente todos estes momentos.
A resposta em um velho pedacinho de papel ele me deu, após ter lido segui meu eterno caminho, assim deixando cair aquele velho pedacinho de papel aonde estava escrito: ”É com esses momentos que aprendemos a lutar pelo que somos, alcançar o que falta ser alcançado e correr atrás dos nossos sonhos”.

Tão iguais, tão diferentes...


Somos todos tão iguais e nos vemos tão diferentes! E quando nossos sentimentos se cruzam com o que lemos ficamos surpresos…
Não somos os únicos a sentir dor; não somos os únicos a sentir medo, insegurança…
Não somos os únicos a temer o desconhecido, a sentir decepção, a chorar de tristeza, a ficar na dúvida, a não saber que decisão tomar e recear ter feito a escolha errada…
Sofremos mais porque nos vemos sós. Porque temos dificuldade em imaginar que outras pessoas passam por caminhos parecidos com os nossos. Porque nos fechamos no nosso quarto e em nós…
Nos sentimos tão miúdos que dificilmente imaginamos que fora de nossa janela outros seres sentem-se pequeninos também, cada qual sozinho na sua dor e solidão. A auto-piedade que nos devasta, assola milhares de “eus” espalhados por aí.
Vistos do alto, somos apenas pequenos pontos, grãos de areia no mar da vida, tremendamente parecidos. E a chuva quando rega a terra, não escolhe cabeça; o sol ilumina tudo por igual e a lua pode encantar qualquer um.
Somos todos sim iguais na alma, na pequenez e na grandeza. Eu choro também, me comovo, morro um pouquinho a cada dia e renasço na minha fé. Desanimo de vez em quando e ergo a cabeça logo depois.
Espero impaciente o nascer do dia e faço planos para o dia seguinte. Me faço mil perguntas para as quais não encontro respostas.
Somos assim, tão iguais eu e você e tantos outros!… A prova disso é que você se identifica com o que digo.
Se a emoção que aperta o meu peito, aperta o peito de quem me lê, é porque somos feitos do mesmo barro. E se posso ver e crer na vitória e ultrapassar meus limites é porque todo mundo, cada um pode. Podemos conjugar todos os verbos em todos os tempos!
É verdade que o sol não nasce e não se põe para nós no mesmo momento, mas isso não muda em nada a verdade de que somos assim maravilhosos e importantes grãozinhos de areia aos olhos de Deus.

Laços Incomuns


Sentado no último banco de um ônibus coletivo, eu observava o entra e sai de passageiros, e ficava a observar aqueles rostos desconhecidos mas cheios de histórias. Perdido em pensamentos fui interrompido por uma moça que me pedia licença para se sentar junto à janela. Enquanto eu tentava imaginar o que poderia estar passando pela cabeça dela, ela atendeu ao celular. Não me prendi muito na conversa dela, mas dava a entender que falava com o namorado, ou seria marido? Mas isso não importava, porque na verdade o que eu me perguntava era quais seriam os laços que mantinham aqueles dois juntos? Qual teria sido o momento onde descobriram suas afinidades? Comecei então a lembrar das pessoas que fizeram e fazem parte da minha vida. Com algumas foi tão simples criar afinidades, já começando pela troca de olhares vindo a conversa somente a fortalecer estes laços. Descobri com o tempo que é preciso manter os laços "apertados". É como você fazer um embrulho e colocar um laço no mesmo. Se você ficar andando o tempo todo com aquele embrulho para cima e para baixo, sem se preocupar em de vez em quando dar um aperto no laço, ele irá se soltando aos poucos, até se desfazer completamente. Assim são nossas relações. Tive amigos de infância que o tempo e a vida atribulada de cada um acabou por nos levar por caminhos distintos. Quando após meses ou mesmo anos nos encontramos, ficou evidente que já não existia mais a mesma afinidade de antigamente. Pensando em afinidades cheguei a uma conclusão. Afinidade não é encontrar alguém que tenha os mesmos gostos que você. Afinidade é se sentir bem ao lado de alguém que goste de música sertaneja, enquanto você gosta de Rock. Saber que ela prefere piscina e você praia. Ela prefere shopping e você barzinhos. Enfim, afinidade é você criar laços incomuns. É aprender com o outro a ver de forma diferente as coisas que antes você ignorava. É na diferença que crescemos.

Acho que afinidade vai além do gostar das mesmas coisas, afinidade de pele, de sentimentos, de tesão mesmo. Já gostei de garotas que tinham tudo pra combinar comigo, absolutamente TUDO, mas cadê o corpo-a-corpo, o olhar não batia junto com o meu, o beijo saia uma luta greco-romana, um verdadeiro horror. Quando procuramos alguém e buscamos encontrar certa afinidade com essa pessoa, pode ter certeza, você não passara de alguns momentos com ela. Agora se você deixar o barco rolar descobrir defeitos, pode ter certeza, ai esta o segredo do sucesso. Como diria Arnaldo Jabor, “Não gostamos das pessoas porque elas são cheirosas, são lindas e não tem chulé, nos atraímos pelos defeitos delas...” e é exatamente isto, não buscamos uma pessoa certa, certinha, buscamos logo uma pessoa que alem de gostar da gente, tenha diferenças, diferenças que nos fortaleçam...

Lágrimas portadoras de sonhos


É geralmente quando o dia se finda, e a noite chega trazendo o silêncio de mais um dia, que somos capazes de ouvir com mais atenção os anseios de nossa alma. E foi numa destas noites que elas vieram; primeiro de maneira suave, percorrendo delicadamente os contornos do meu rosto, para logo depois se tornarem torrentes a banhar o travesseiro, entrecortadas por soluços vibrantes. Assim vieram as lágrimas naquela noite. De início nem sabia pelo que chorava, mas as imagens iam se formando em minha mente, e reproduzindo os momentos que marcaram minha existência. Então chorei... chorei pela inocência da infância que me fazia acreditar que o mundo e as pessoas fossem tão simples; inocência esta que não existe mais. Chorei por aqueles que prometeram serem amigos eternos, e se perderam neste tempo, por aqueles que nunca mais vi, mas que foram peças fundamentais na construção do meu caráter. Chorei pelas palavras mal ditas e mal interpretadas que nunca tive a chance de corrigir, ou a coragem necessária. Chorei pelo primeiro amor, que era tão puro e tão intenso a ponto de me tirar o chão e o sono. Chorei pelo tempo que desperdicei ao lado das pessoas amadas por causa do meu orgulho. Chorei pelas amizades que não construí, pelas pessoas que nao amei. Chorei pelo amigo que fiz irmão, mas que me fez apenas de escada para um objetivo maior, me levando a enterrar sonhos e confiança. Chorei pelo sofrimento que causei às pessoas que tanto amo. Chorei ao lembrar das grades que limitaram meus movimentos físicos, mas não meus pensamentos. Chorei ao descobrir que Deus me ama mesmo eu seguindo o caminho oposto ao indicado por Ele. Chorei pelo que sei que perdi e não recuperarei mais, pelas cicatrizes que ficaram e que deixei ao longo da vida. Chorei porque descobri que a vida não é um rascunho, mas é escrita com sangue no tempo a nós destinado.

Nos resta viver, construindo pontes, realizando sonhos, trilhando caminhos. E as cicatrizes deixadas são os sinais pelas escolhas passadas, a constante lembrança de que é possível mudar, mas que as marcas das escolhas passadas sempre ficarão.....