sábado, 6 de setembro de 2014

O silêncio gritante das palavras


Pés cansados, alma alquebrada. Em meio ao vai e vem de uma cidade que nunca para, visualizei um canto de remanso onde poderia vitalizar o meu cansaço.
Procurei me desligar da vozearia ao meu redor, e fechei os olhos em busca de mim mesmo. Nada parecia dar certo, e eu desejava desistir. Assustei-me com o som de choro e imaginei se não seria eu a render-me ao peso que carregava dentro de mim.
Abri, receoso, os olhos e percebi que o choro sufocado vinha de uma senhora sentada a não mais do que dois metros de mim. Covardemente os fechei novamente. Pensava que atitude tomar. Nunca fui bom com os sentimentos alheios, não por falta de compaixão, mas por nunca saber como agir.
Olhei disfarçadamente para aquela senhora que chorava abraçada a um caderno, e quando nossos olhos se encontraram, não tive saída senão sentar mais perto e perguntar se ela estava bem. Ok. Entendo a estupidez da pergunta. Mas como alertei, nunca fui bom em lidar com estas situações.
A senhora limpou os olhos, me olhou demoradamente e, começou a me contar sobre seu filho. Havia duas semanas que ele abdicara da vida. 21 anos. Uma overdose de remédios, encontrado ao lado da cama num domingo que tinha tudo para ser um típico domingo de macarrão e boas  risadas. Ela o encontrou quando ao voltar da feira, não sentiu o cheiro característico do banho que seu filho tomava todo domingo pela manhã.
Abriu a porta, o cheiro que a recebeu foi o da morte. Seu filho havia desistido da luta. Ao seu lado, o caderno que agora ela abraçava, como se ele pudesse a qualquer momento se transformar em seu filho.
Contou-me ser ele muito fechado e triste. Mas que nunca poderia imaginar... Interrompeu suas palavras, sufocada pela dor. Estendeu-me o caderno e pediu-me que lesse para ela. Seus olhos andavam cansados, ela disse.
Iniciei a leitura da vida daquele rapaz que buscava externar sua dor, transformando-as em palavras. Suas poesias falavam de vida, mas também de dor, angústia, aflição e desilusão. Pedia ajuda diante do que incompreendia. Sofria, sem saber a raiz dos seus sofrimentos.
“Ah! A vida. Como entendê-la quando meus gritos soam mudos?” Assim ele iniciava uma página. E quanto mais eu lia, das dores e alegrias daquele rapaz, mais sua mãe parecia estar diante de um filho que nunca conheceu. Sua poesia era linda. De sua dor ele inundava o papel das mais belas e profundas palavras.
Aquela senhora recostou sua cabeça em meus ombros, e eu podia sentir suas lágrimas quentes banhando meu ombro. Seu filho se fora. Nada mais havia a ser feito por ele, mas suas palavras ainda podiam gerar transformações.
De repente então, comecei a ler mais alto, lendo suas palavras para que o vento as levasse. Para que da morte gerasse vida, semente de frutificação, de renovação, esperança.
Tive a impressão de que o vento carregou a voz daquele jovem que ecoava através da minha voz. Quando levantei meus olhos marejados, as palavras corriam de mãos dadas, fazendo roda, trenzinhos, correndo em círculos desconexos. E então começaram a cair sobre as pessoas que passavam, e eu posso jurar que através dos meus olhos embaçados, pude perceber os olhos daquelas pessoas se encherem de emoção e vida.
Voa palavra, gere vida onde a morte insiste em fazer morada. Ressuscite corações, nos traga primaveras.
E aquela senhora, também maravilhada com a dança das palavras, olhava para o céu onde muitas delas ainda continuavam a serem levadas pelo vento. Estendeu-me o caderno e pediu que eu ficasse com ele. Recusei diante do valor que o caderno teria na vida dela, como lembrança viva de seu filho. E depois de mais de duas horas de conversa, ela sorriu pela primeira vez. Leva contigo o caderno e solte ao mundo as palavras do meu filho, me disse ela. Eu o encontrarei em cada pessoa onde as palavras fizerem morada.
Peguei então o caderno, como o sacerdote ao tocar o cálice, o divino. E desde  o dia em que aquela senhora me presenteou com as poesias do seu filho, tenho me esforçado na tarefa de espalhar vida, de afugentar a dor, de levar um pouco de forças para quem precisa. E por isso escrevo, firme na promessa que fiz àquela senhora em honra de seu filho.  


Um comentário:

Anônimo disse...


Sensível, delicado, triste...conforto,força e alivio para o coração de uma mãe cheia de desespero. E afinal, exemplos para todos nós, que vemos e sentimos tudo isso e nos calamos em solidariedade e respeito ao jovem que cumpre com sua promessa. Lindo texto!