terça-feira, 9 de setembro de 2014

Na Noite Escura


Ele sempre quisera entender as pessoas, romper o superficial que oculta o essencial. Talvez seja o medo que reprima a essência, ele pensava. Mesmo ainda tão novo para apreender a complexidade do mundo e dos seres humanos, ele já compreendera o quanto as pessoas tem medo da profundidade, preferindo muitas vezes transitar na superfície do eu.
Filho único, de uma família onde o silêncio só era rompido durante as discussões de seus pais, onde as brigas eram ganhas por quem gritava mais alto e nunca por quem possuía os melhores argumentos. Seu refúgio, um canto no quintal, onde por detrás de uma amoreira, ele guardava no vão do muro que dividia seus domínios com o do vizinho, seu único livro.
Na noite escura. Era o nome do livro. Um livro só de imagens abstratas, sem texto. Um livro de papel negro, papel vegetal e papel reciclado. Um livro composto de aspectos visuais. Ali, entre o muro e a amoreira, ele dava vida ao livro. Inseria personagens, criava histórias. Ele não entendia mesmo podendo sentir, que o livro era o espelho de sua alma.
Aos 12 anos, mesmo sabendo ler bem, nunca ganhara um livro. A primeira vez que pediu aos pais um livro, sua mãe riu tanto que chegou a chorar. Foi também a última vez que ele pediu.
Quando saia com sua mãe, quase sempre andava aos tropeços, pois insistia em observar as pessoas. Olhando mãe e filha rindo juntas em frente à vitrine de uma loja, ficava pensando o que poderia ter suscitado aquele riso. As pessoas passavam por ele vindas de toda direção, e ele tentava olhar em seus olhos para decifrar o que ia no coração. Ele havia lido em algum lugar que os olhos são os espelhos da alma. E ele queria ver a alma das pessoas, já que nas duas vezes que tentou encontrar a alma de seu pai, na primeira viu apenas um vazio, e na segunda, ganhou um forte tapa no rosto “para aprender a não encarar os mais velhos”.
Mas todas as vezes que buscava os olhos das pessoas, quando eles se encontravam com os seus, as pessoas logo desviavam os olhos, e ele se perguntava se todas as pessoas viviam presas dentro de si como ele.
Então seus olhos encontraram os olhos mais lindos que ele já vira. Não foi o acastanhado claro dos olhos que o fascinaram, mas sim a força que vinha deles, como dois pequenos sóis a irradiarem luz própria. E aqueles olhos não desviaram do seu olhar, e ele sentiu a vida que pulsava por aqueles olhos, indo até os recônditos de sua alma, iluminando todos os espaços que por 12 anos permaneceram escuros.
E quando sua mãe deu um forte arranco em seu braço, xingando impropérios, ele não se importou com a dor que se difundiu pelo braço.  Buscou na multidão aqueles olhos que não mais encontrou. Mas não importava, pois pela primeira vez na vida ele enxergava as cores da vida. E decidiu que aquela luz não mais se apagaria. Tira esse sorriso idiota do rosto e anda, disse sua mãe. E então ele se sentiu condoído pelos seus pais que viviam ainda presos na escuridão e por todos aqueles olhares apagados, valsando perdidos tristemente pela vida.

Mas para ele nada mais importava, ele havia chegado ao êxito de sua busca, encontrado a luz, ele havia enfim iluminado sua noite escura. 

Um comentário:

Anônimo disse...


Menino vitorioso, depois de buscar, lutar, sofrer, encontrou com sua resplandecente Alma.Siga em frente menino, não olhe para trás, a luz irradiante da sua alma, sempre iluminara o caminho da sua vida.