Gostaria
de encontrar pessoas que sem meandros me explicassem o verdadeiro significado
da palavra fraternidade. Não em citações do seu significado buscado em dicionários, mas com atitudes concretas. Eu acredito
que se banalizou muito o uso desta palavra, desprovida de seu verdadeiro valor.
Gosto
muito de desmembrar as palavras lá em sua origem, onde mais fácil fica perceber
o que a mesma deseja representar. No latim, fráter significa irmão. Então a fraternidade deve nos levar a
vivermos em união, como irmãos. Mesmo que em nossos tempos com uma frequência maior,
os laços de sangue já não sejam uma premissa para o amor, a definição nos ajuda
a entender o objetivo mor da fraternidade.
Depois,
remetendo aos conceitos filosóficos, a fraternidade vem atrelada às ideias de
liberdade e igualdade, que constituíram grande parte do pensamento
revolucionário francês. Desta forma, meu entendimento me faz acreditar que a
fraternidade carrega consigo uma grande responsabilidade e nos suscita um
grande compromisso que é o de amar aos outros como irmãos, no respeito, na
liberdade do outro ser quem é e na igualdade entre os pares.
Vejo
esta palavra surgir com frequência, mas não vejo a sua aplicação equiparada à
sua citação.
Estive
por um ano e meio prestando serviços numa organização religiosa evangélica. A primeira
coisa que notei, foi que em nenhum momento me senti diferente, deixado à
margem, tratado como alguém que não pertencesse ao meio. Sempre fui tratado tão
carinhosamente por pastores, pastoras, membros e funcionários daquela igreja,
que verdadeiramente ali eu encontrei a tão falada fraternidade. E ali, mesmo não
professando a mesma fé, nunca me olharam com olhos que não de amor. E então
constatei que a fraternidade é como uma criança de colo que estende os braços a
quem a deseja.
Como
católico, tenho sentido falta desta fraternidade mais vivida que falada. Frequento
há mais de trinta anos a mesma comunidade, e tantas vezes percebo como me sinto
sozinho lá, como tantas vezes parecemos mais figurantes numa peça teatral,
apenas ocupando espaços sem ao menos sabermos quem é o outro que está tão
perto.
Minha
noiva com certeza identificaria o problema e me transmitiria sua percepção com
apenas um olhar. E eu não posso de fato desdizer do que ela pensa. Eu de fato
sou uma pessoa difícil de relacionar. Mas não porque eu não saiba acolher o
outro e respeitar as diferenças, mas porque sou muito entranhado em mim mesmo,
um bicho do mato como ela mesma diz. Minha timidez afasta, talvez porque a
vejam como prepotência. Sou de falar pouco quando diante de alguém que não
conheça muito bem, e logo a conversa acaba não rendendo muito, e a pessoa pode
até pensar que eu me enfadei e desistir de uma aproximação mais efetiva. Ela tem
razão. Eu sou parte do problema. Mas mesmo como bicho do mato, aqueles membros
daquela comunidade me alcançaram e me fizeram de fato me sentir um irmão com
eles.
Mas
independente disso, tenho observado como as pessoas ainda são muito presas
naquilo que o outro tem a oferecer. Posso entrar e sair da igreja durante mais
de 30 anos, sentando sempre no mesmo lugar, sem que as pessoas ao redor sejam
capazes de oferecer ou retribuir um cumprimento de forma mais efetiva. Mas basta
que adentre uma pessoa que carregue um título à frente do nome, para que se forme
fila para cumprimentar e oferecer o melhor dos sorrisos. Então percebo que é fácil
pregar a fraternidade, desde que não seja condição sine qua non que a viva
também.
E
tudo isso tem me feito buscar ser mais fraterno, mesmo que o outro me olhe intrigado
ou não me retribua. Talvez seja eu que precise primeiro me despir dos meus
excessos, para que o outro encontre onde fazer morada em mim.
E
pensando em tudo isso, eu percebo que sou muito crítico, que espero demais
daqueles que dizem buscar viver como Jesus viveu. Afinal, somos todos vasos de
barro sendo moldados pelo Criador. E muitos ainda são reticentes a estas
mudanças.
Então,
a segunda carta de São Paulo aos Coríntios, em seu capítulo seis, versículo
doze, me ofereceu o que meditar:
“Nele
não falta lugar para vós; em vós mesmos é que não tendes espaço.”

Um comentário:
O verdadeiro significado da fraternidade vc descobriu por si mesmo. Me lembrei agora daquela oração que diz: Deus Pai, Tu és o meu único refúgio, meu único sustento.
Raquel
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