A lenha
queimando no fogão me remetia ao desfiar de contas do rosário nas mãos das
idosas que sussurravam ave-marias como um trem de ferro ganhando velocidade.
Era incompreensível o que diziam, mas o som das diversas vozes trazia acalento
ao meu coração. Assim era com o canto da lenha crepitando. Tempo de
simplicidades, tempo de singelezas.
Saíamos
cedo para buscar lenha e, muitas vezes, encontrávamos o sol saindo também para
mais um dia de trabalho. A lenha, que era juntada nos braços, era como sonhos
pegos pelo caminho. O trabalho se misturava com as risadas e o canto dos
pássaros.
A lenha se
fazia cinza para gerar calor. Cumpria seu papel. Como a lenha, eu desejava me
consumir por um propósito maior. A lenha que queimava era também oração.
A lenha
alimentava o fogão, e o café que estava sendo preparado tinha cheiro de
felicidade.
Ali, ao
redor da mesa, junto ao fogão, era o altar sagrado da convivência familiar.
Todos eram bem-vindos e a alegria se multiplicava ao ser partilhada.
A única
condição era depositar ao pé da porta de entrada qualquer forma de ter. Ali, só
o ser encontrava lugar à mesa. Nos despíamos do status, depositávamos os
doutores, os diplomas, os cargos, as hierarquias e, ao tomar cada qual seu
lugar, todos se sentiam mais leves.
A mesa posta, a broa de fubá, o café ainda fumegando, os corações quentes. Então, Deus tomava seu lugar à mesa, nos concedia sua bênção e sorrindo, pedia que lhe passassem a manteiga. Naqueles instantes, a gente contava causos, brincava e acreditava que o céu se faz presença onde lhe preparamos a mesa.

Um comentário:
E nestes momentos , podemos ver, que o paraíso também pode existir aqui na terra.
Raquel
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