Caminhei
tantas vezes perdido, procurando encontrar o que eu mesmo nem sabia que
procurava, ou o que procurava.
Olhava
o mundo com desconfiança, me sentindo tão deslocado de tudo. Um vazio, uma
saudade, um desejo, uma vontade de não sei o que. Nem eu mesmo compreendia
minhas lágrimas, apenas tinha ciência de que elas precisavam romper a represa
de meus olhos e se libertarem. Precisavam me libertar também.
Diante
daqueles que me olhavam na superfície, meu riso tantas vezes forçado lhes
bastava. Eu era solidão na multidão, e tantas vezes fui multidão na reclusão de
mim mesmo.
Fiz
da poesia, da escrita, meu canal de salvação. Despejei no papel toda minha dor,
tudo que não compreendia, tudo que feria. As letras corriam linha por linha,
folha por folha, e minha alma se derramava no papel. Eu era o único leitor de
mim mesmo. Lia a dor que construiu morada dentro de mim. Posseira, se recusava
a ir embora. Rasguei tantas vezes folhas e folhas, como se este gesto pudesse
expurgar a dor que eu havia gravado em suas linhas.
Observei-me
no espelho e vi além da aparência marcada pelos anos. Dentro de meus olhos vi o
caminho da busca incessante de um porto seguro.
Reconheci
que para seguir, é preciso se desfazer das bagagens extras, dos pesos
desnecessários. Fui me desfazendo de tudo que me pesava a alma, ciente de que a
melhor forma de seguir, é não permanecer preso em situações de nossa história
onde fomos fracassados.
Persisti
na busca, e hoje, acredito que encontrei. Vou ancorar meu barco, recolher as
velas. Caminharei agora com passos decididos de quem sabe onde quer chegar. Pois
já não caminho mais sozinho.

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