Caminhava a passos trôpegos pelas
ruas ainda molhadas da forte chuva que desabara no final daquela tarde. Seguia alheio aos passantes, que o julgavam
com o olhar duro de quem se julga superior, apenas por não ter suas misérias
visíveis aos olhos dos outros.
Ele não havia consumido nenhuma
gota de álcool, mas seu caminhar vacilante vinha do peso que carregava dentro
de si.
Fez sua paragem na entrada do
parque, onde seu olhar perdido afastou um casal de adolescentes. Ou talvez suas
roupas sujas e molhadas ainda da chuva, aliada ao desespero que transparecia em
seu rosto, tenham feito dele uma pessoa a ser evitada.
Desviou do banco onde momentos
antes o casal estivera, e sentou-se na relva, fria e ainda molhada. Assim como
ele se encontrava, molhado e frio. Apenas suas lágrimas desciam quentes, se
misturando aos resquícios da chuva que molhou seu corpo, e se perdiam,
fundindo-se com a água que agora pingava entre suas pernas dobradas.
Os erros sempre cobram um preço que
não aceita nota promissória. Não há como fugir das conseqüências.
Vivia a triste realidade daqueles
que desejariam voltar no tempo e modificar seus passos. Hoje conseguia enxergar
como caminhou perdido por caminhos que julgava conhecer. O bem que conhecemos,
nem sempre atinge nossas ações. E naquele momento, ele mais que ninguém era
capaz de atestar com a vida essa verdade tão absoluta e dura.
Caminhou até o pequeno riacho e
se agachou em sua margem. O reflexo projetado lhe fez se sentir diante de um
desconhecido. Não se reconhecia naqueles olhos tristes que o encaravam de
dentro da água. Não sabia se via acusação ou remição.
O mais duro de nossos erros é que
tantas vezes não pagamos o preço sozinhos. Tornamos coletivo um erro que só
pertence a nós. Imputamos dor em quem não deveria se tornar Cirineu de nossas dores.
Ah se pudéssemos tirar do outro a
cruz que nós mesmo lhe jogamos aos ombros. É injusto que sobrecarreguemos outros com
nossas imperfeições. Mas sendo imperfeitos e necessitando conviver, como
resolver essa equação? Como equalizar na convivência essa realidade?
Lembrou-se das palavras duras que
recebeu, quando foi acusado de pensar somente em si, de não agir com o outro
como gostaria que agissem consigo mesmo.
Agitou a água com as mãos e viu
seu reflexo se desfazer num borrão. Levantou-se sem saber que direção seguir.
Não apenas do caminho físico, mas também de sua vida. O prosseguimento
necessita a adequação dos desajustes. E para isso é preciso exercitar o
esquecimento. Mas esquecer lhe parecia buscar o caminho mais fácil, onde esquecer a
dor causada e o sofrimento do outro lhe permitiria seguir sem se preocupar com
a caminhada de quem ganhou o peso da dor. E os caminhos fáceis lhe soavam como covardia.
Talvez o caminho só pudesse ser
retomado, porém em novas direções, se a misericórdia florescer. Quem erra precisa
encontrar um espaço onde a misericórdia o possibilite reorientar condutas.
Preso nestes pensamentos, seguiu
o caminho. Ainda não tinha uma rota definida. Ainda não sabia se o novo caminho
o levaria a estações mais tranquilas. Mas sabia que precisava caminhar.
Existirá talvez entre nós alguém
que nunca tenha sentido a necessidade de ser olhado com misericórdia? Os que
acusam e os que defendem... Não somos nisso todos iguais?

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