domingo, 23 de agosto de 2009

A dor de quem fica


Descobri que não sei conviver com a dor alheia. A dor do outro me machuca mais que minhas próprias dores por vezes. Com minhas dores sei dialogar, mas como dialogar com a dor do outro? Entendo então o motivo que velórios sempre me constrangem. Me deparar com aquele que perdeu um ente querido, e não ser capaz de formular nenhuma palavra de consolo, mostra minha inutilidade. Ofereço por vezes apenas meu abraço e minha presença como indicativo de que estou ali, de que sofro junto, de que morro um pouco diante da dor daqueles que ali estão.
No momento que o outro é tomado pela dor, dizer palavras de consolo, falar do amor de Deus, tentar mostrar o lado bom da situação, não acho que seja o mais apropriado naquele momento, porque a dor nos cega e nos tira o chão. Claro que aqueles que tem o dom da palavra, devem se manifestar. Mas eu entendo que a presença é sempre o melhor a se oferecer nestes momentos, porque com a presença você diz ao outro que também não sabe explicar a dor dele, mas que quer partilhar com ele daquele sofrimento.
A dor do outro é um território muito particular. Cada um reage de um jeito diante da dor, não existem regras de como a dor deve ser enfrentada. Respeitar o outro é sempre a melhor forma de ajudá-lo a superar a dor. Não vá com discursos prontos, eles nem sempre encontram terreno onde germinar.
Acredito que o mais difícil da perda seja saber que o outro se foi e que muito ficou a ser dito. E o pior, é saber que não resta mais o que fazer, aquele que se foi já não pode escutar que nós o amamos.
Um vizinho ficou por 10 anos sem conversar com o pai por motivos de briga entre seus pais por causa de pensão. Estranho que quando a pessoa ainda está viva, nosso orgulho teima em nos afastar, mas quando recebemos a notícia da morte daquela pessoa, tudo ganha uma nova visão. Ao receber a notícia da morte do pai, tudo se transformou, e ele ficou por horas seguidas ao lado do caixão, ninguém o conseguia tirar dali. Não saiu nem para comer, nem para descansar, e só abandonou o caixão no momento que ele foi enterrado. Triste imagem.. como dizer a ele que seu pai já não estava ali? Que ele se desculpava diante de uma matéria, daquilo que um dia recebeu a essência de seu pai?
Triste somos nós quando não seguimos aquilo que realmente nosso coração nos pede, e por vezes esperamos demais por um amanhã que muitas vezes não chega.
Por que esperar o amanhã se temos o hoje? Quando aprendermos a viver as coisas no hoje, não teremos que ver o amanhã morrer antes mesmo de chegar.

Um comentário:

Unknown disse...

Bom no começo desse texto, me lembrei exatamente do dia da morte de mamãe. Realmente você se fez presente e esse simples fato já não precisou mesmo de palavras. A presença já disse tudo. Obrigada por tudo. Bjs